
1.
A história não se repete, mas rima.
Mark Twain
A palavra rima vem do francês antigo rime: série, sequência. Rima é repetição. Mas um tipo particular de repetição – que não é uma repetição. Maçã e maçã são uma repetição, não uma rima. Manga e manga não são uma repetição, mas uma rima (“manchou a manga com manga”). Rima não é repetição, mas recorrência: a recorrência da dimensão formal do signo verbal.
Porém o signo verbal é formal-semântico (morfossemântico). E a dimensão semântica não está contemplada na acepção consagrada, restrita, de rima – que, portanto, não nomeia o mecanismo geral da rima, da recorrência. A rima deveria se chamar formorrima.
Há de haver, então, a rima semântica: a recorrência não redundante do campo semântico de uma palavra em outra que lhe esteja próxima. A rima semântica não é reconhecida como tal na literatura – logo, não tem um nome. Reconheço-a e nomeio-a eu: semantirrima.
Há de haver, igualmente, a rima morfossemântica: a recorrência do significante e do significado. A formossemantirrima.
Para diminuir um pouco os palavrões, chamarei a formorrima de rima, a semantirrima de semantima e a formossemantirrima de formossemantima.
Rima:
saí com meu cão
para comprar pão
Há aqui, na verdade, duas rimas co-incidentes – portanto, autorreforçadas. O som ão e a medida (pentassílabo) dos versos, de-marcada pela incidência distal do som. Uma rima sonora e uma rima rítmica. Um duo de formorrimas.
o vermelho
era a cor
que se podia ver melhor
Uma rima complexa ainda é uma rima.
Ainda que se trate de uma rima coroada e uma paronomásia:
a cada dia
o cinza e as cinzas
do fim do dia
Semantima:
noites em claro
dias em branco
A rima semântica é feita de palavras diferentes com significados semelhantes: claro / branco. É o oposto complementar da paronomásia, feita de palavras semelhantes com significados diferentes: o cinza / as cinzas (além da rima semântica, também há aqui a rima rítmica, nos versos tetrassílabos).
Suas interseções podem ser ao mesmo tempo sutis e complexas:
nuvens brancas
passam em brancas nuvens[1]
As palavras são as mesmas, distintos os significados: um denotativo, o outro, metafórico. A definição de uma paronomásia. Porém, não inteiramente distintos. A expressão metafórica “em brancas nuvens” significa em paz, tranquilamente: sua origem é a própria condição denotativa das nuvens brancas. As mesmas palavras, significados distintos, mas diretamente relacionados. Uma semantima paronomástica.
Formossemantima:
o alvo
era distante
mas claro
Há a relação formal (rima sonante: AlvO/clArO) e a semântica (alvo/claro). Uma formossemantima pode ser simples, se sintética.
Mas, se sintética, há de ser rara e muito rara. Tem de ser achada no repertório (no repositório) da língua, como as rimas; porém, ao contrário das rimas, que demandam apenas um critério, e das semantimas, idem, as formossemantimas sintéticas impõem um duplo critério simultâneo.
Felizmente, há um segundo subtipo de formossemantima, que não precisa ser achado, mas pode (deve) ser construído. Chamá-la-ei de formossemantima analítica.
entra uma negra no quarto
de paredes brancas
da clínica de noites em claro
dias em branco
Quarto e claro são uma rima (sonante). Brancas, claro e branco são recorrências semânticas: uma semantima tripla. Quarto/brancas/claro/branco contém recorrências formais e semânticas: uma quádrupla formossemantima analítica. Construída e construível.
entra uma negra no quarto
de paredes brancas
da clínica de noites em claro
dias em branco
trazendo uma xícara branca
cheia de um líquido preto [2]
Brancas e branco não são uma repetição, mas uma paronomásia: (quase) as mesmas palavras, significados distintos (uma é denotativa, a outra, metafórica), porém relacionados, como as nuvens acima. Uma semantima paronomástica. Portanto, uma semantima com uma dimensão formal. Uma paraformossemantima.
Rimam ainda semanticamente, por antinomia, com negra.
Por sua vez, negra se desdobra em outras duas semantimas: uma direta, com preto, outra, também por antinomia, com branco.
No centro da estrofe há outra semantima, não de termos, mas de expressões: “noites em claro/dias em branco”.
O branco da expressão “dias em branco” não é o mesmo de “xícara branca”. Portanto, não são uma repetição, mas outra paronomásia: mais uma vez, as mesmas palavras, significados distintos. Porém relacionados, como as nuvens: uma semantima paronomástica; uma paraformossemantima. Enquanto dIAS/BRANCo tem recorrências sonoras, ressonâncias, com XIcAra/BRANCa: uma formossemantima.
Todos esses termos (exceto negra) estão em posição distal nos respectivos versos. Posição de ênfase rítmico-estrutural característica das rimas, à exceção das exceções, como as rimas coroadas.
2
Rimas de formas (rima, aliteração, paronomásia, anagramia etc.). Rimas semânticas. Rimas morfossemânticas. Rimas rítmicas: invariantes no poema metrificado, variantes no poema não metrificado. Rimas tonais (recorrência/alternância de tônicas e átonas). Rimas estruturais (recorrências de estrofes). A condição natural da linguagem verbal é linear-temporal. Ela é unidimensional (à diferença, por exemplo, do desenho, bidimensional, e da escultura, tridimensional). Ao impor recorrências à linguagem verbal, a linguagem poética se contrapõe a essa linearidade – que, na prática, desfaz, ainda que não a desfaça inteiramente. A linguagem poética deslineariza a linguagem verbal.
Na fala e na prosa (como aqui), tudo vai. Na linguagem poética, tudo vai e muito volta. Ela é um vai-e-vem. Não há poema sem alguma forma de rima (não existe poema “livre”). Não se trata de uma idiossincrasia, mas de uma característica determinante, no sentido duro do termo.
A linguagem poética não se realiza apenas por recorrências. Porque as mesmas recorrências também codeterminam que ela seja discreta, ou seja, medida e comedida. Não se pode retornar em um fluxo contínuo. Não se pode retornar sem impor a esse fluxo sua subdivisão (portanto, sua interrupção, ainda que momentânea) em unidades menores. A linguagem poética é recorrente-discreta: discreta porque recorrente, recorrente porque discreta.
A primeira razão, em termos históricos, foi tornar a linguagem verbal memorizável, antes de invenção da escrita. Não se pode decorar toda a Torá (pode-se: mas apenas se tornando um profissional em tempo integral da memorização da Torá), mas se pode (e se deve) decorar facilmente o soneto de Camões com uma das principais passagens da Torá.
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada sua pastora,
como se a não tivera merecida,
começa de servir outros sete anos,
dizendo: – Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Menos fácil seria lê-lo se apenas as recorrências formais forem destacadas:
SEte ANOS de PAstor Jacob SErvIA
LABão, PAi de RAQUEL, SErRAna BELA;
mas NÃO SErvIA ao PAi, SErvIA a ELA,
QUE a ELA só Por Prêmio PretendIA…
O principal instrumento de memorização da linguagem poética são as mesmas recorrências morfossemânticas de todos os tipos (polimorfismos, polissemias e polimorfossemias), possibilitadas/realizadas/enfatizadas pela recorrência discreta, que não existem nem podem existir em situação linear ou prosaica.
O melhor exemplo é o enjambement, figura estrutural e estruturante derivada diretamente do mecanismo geral da recorrência discreta e inexistente (impossível) na prosa.
Entre os recursos que o caráter recursivo-discreto da poesia origina, o mais importante é o enjambement, ou “encavalamento”, pelo qual uma frase é interrompida num verso para ser continuada no outro. Isto estabelece uma relação ativa entre frase e versos, que de alguma forma altera a frase enquanto determina os versos. […] Em termos gerais, o enjambement determina a poeticidade de uma frase em relação a essa mesma frase em situação prosaica, ao impor uma pausa ao seu fluxo linear e assim gerar novos sentidos, transformando-a, afinal, em outro texto (o que diferencia o enjambement dos cortes aleatórios). O enjambement é um recurso poético estrito: existe apenas na linguagem poética. E se existe um recurso poético estrito, a linguagem poética, logicamente falando, existe.
Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada.[3]
A “vitória já passada” é a da batalha de Ourique, em 1139, com a qual o conde D. Afonso Henriques, do Condado Portucalense, inicia uma série de vitórias contra os reis mouros ao sul de seu território, criando, no caminho, o reino de Portugal. O escudo português homenageia desde então a batalha. É sob esse escudo, portanto, que, no “presente” do século XVI a que se referem os versos, devem se dar as novas vitórias contra os mouros, no contexto da expansão portuguesa. Ocorre que a conotação de presente como dom, regalo, dádiva, em paralelo à conotação temporal, existe em português desde o século XIII (CUNHA, 1982, p. 633). E é para essa conotação que apontam, no primeiro verso, o verbo ver e a substantividade de escudo, para ela ser afinal plenamente realizada pelo enjambement, ao criar a quase-exclamação “que presente”. Em prosa, os dois versos seriam apenas uma frase: “Vede-o no vosso escudo, que presente vos amostra a vitória já passada”. E a frase teria um só significado, o do presente previsto pelo passado. Com o enjambement, insere-se uma polissemia, criam-se frases (“que presente”) e significados que não existem e não podem existir em linguagem prosaica, como as cores de uma paisagem inexistem num desenho a grafite: a “vitória passada” torna-se um presente dado por D. Afonso a seus herdeiros no trono português, a que devem fazer jus com vitórias no presente.[4]
3
A linguagem poética, sendo o que é (uma linguagem), não está restrita ao poema (uma aplicação necessária mas não exclusiva da linguagem poética). Ela pode ser e é usada onde se queira e se possa. E se pode e se quer usá-la (por parecer conter, pela mesma recorrência discreta, relações rítmico-evocativas) em rituais, oráculos, fórmulas mágicas: “Abracadabra / que essa porta se abra”. Em slogans políticos, “I like Ike”, e também comerciais, “O mundo gira, a Lusitana roda” (uma semantima a serviço de uma transportadora). Em provérbios: “Água mole em pedra dura / tanto bate até que fura”. Neste caso, além da rima e da rima rítmica (redondilha maior), há o marcado ritmo monótono feito de recorrentes dissílabos tônicos-átonos (água/móle/pédra/dúra…), imitando um pingar: tal capacidade mimética é característica da plasticidade recursiva da linguagem poética.[5]
Ela também está presente nas letras de canção: não há letras sem rimas. No entanto, letras de canção não são poemas. Um poema é uma obra sem si. Uma letra de canção é parte tributária de uma obra (a canção): uma letra não é uma obra. Além disso, integram tradições distintas, que impõem repertórios de formas e de temas também distintos: propriamente poéticos, na poesia; coloquial-popular, na canção. Daí tantos coloquialismos, como interjeições (“Ó quanto riso, / Ó quanta alegria”) e abreviações (pra por para, tá por está etc.), entre outros. Daí seu limitado campo temático. Cabral certa vez perguntou a Vinicius, que acabara de cantar mais uma canção de amor: “Pô, Vinicius, você não tem outra víscera para cantar além do coração?”. Ao contrário, há poemas de todas as temáticas, todas as dimensões, todas as grandezas, todas as possibilidades verbais. A poesia é o repositório e o laboratório da língua. Toda a experiência humana cabe na poesia. Letras têm escopos muito limitados: têm de ser simples e breves. Letras não respiram bem no papel – também por perderem as informações da melodia, do ritmo, da entonação, da instrumentação. Letras de canção são menores no papel do que na canção. Poemas podem ser musicados, mas não deixam de ser o que são. Em um poema musicado, a melodia é acréscimo; em uma canção, é parte constitutiva. O poema existe sem a melodia; a letra de canção, não. Isto é mais real do que parece à primeira vista: no processo de com-posição (combinação de partes em um novo conjunto), como regra, letra e melodia são ajustadas uma à outra, para melhor justaposição. Não são autônomas. São mutuamente limitadas-delimitadas.
A música instrumental é linguagem poética assemântica (uma nota dó não se refere a nada além de si mesma). Porque assemântica e porque poética, em termos objetivos (estruturais), feita de recorrências de figuras e de elementos sonoros (além de pausas no fluxo temporal-linear). Linguagem poética, não morfossemântica, mas formal-estrutural.
O uso da linguagem poética não faz um poema.
Não escrevo “a poesia” porque, ao contrário do poema, não se sabe o que “a poesia” seja. Quiçá uma metafísica ideológica, além de ilógica, pois separada da linguagem poética – e do poema. Daí haver, ou se crer que haja, “poesia em prosa”. Ainda que, estranhamente, não exista a “prosa em poesia”. Talvez porque, se ela fosse “em poesia”, não seria em prosa: uma prosa não em prosa, uma prosa não prosa, o que parece contradição demais mesmo para o mais mitomaníaco dos relativistas. Do mesmo modo, “poesia em prosa” não pode ser poesia, pois poesia não é prosa. Se é, trata-se de prosa em prosa. São inúteis construções circulares. A não ser que poesia seja qualquer coisa, logo, nada. Se for nada, não pode ser nada, inclusive um fragmento de prosa porosa.
A rigor, a prosa que pode ser dita poética é a que contém significativas recorrências morfossemânticas, a despeito de serem mais semânticas que formais e de não serem estruturais nem estruturantes, não impondo discrição real ao fluxo prosaico. Um exemplo é Finnegan´s Wake. Outro, Grande sertão, em que se acham, por exemplo, vários decassílabos: “Pão ou pães, é questão de opiniães”. Trata-se de um decassílabo heroico com uma rima coroada. Há outros. Porém, a maioria não está tão demarcada, mas inserida, en passant, no fluxo linear da prosa. Seja como for, são exceção, que confirmam a regra da pretensa poeticidade autoatribuída sem qualquer critério objetivo aos autodecretados “poemas em prosa”, às autoafirmadas “prosas poéticas” e outras automitologias.
Outra exceção era a antiga arte da retórica, que não existe mais. O último grande orador conhecido foi Winston Churchill. O empobrecimento do discurso público é geral, e é de ideias e de formas. Mas nas mãos e mentes dos grandes oradores, Cícero, Vieira, Lincoln, a retórica, entre outras coisas, era linguagem poética aplicada ao discurso. Um dos objetivos é ser mnemônico (além de rítmico-envolvente). Churchill: “This is not the end; it is not even the beginning of the end; but it is, perhaps, the end of the beginning”. Trata-se de uma poética de ideias (que não tem a ver com a logopeia de Pound), em que os conceitos, subdivididos em módulos mínimos de sentido maximamente precisos, são articulados e rearticulados para gerar ainda mais sentidos e articulações. Separando espacialmente as frases, a linguagem poética fica aqui evidente, não por qualquer mimetismo do margeamento à esquerda, mas pela evidenciação do jogo de recorrências:
this is not the end
it is not even the beginning of the end
but it is, perhaps,
the end of the beginning
Ou: “Never was so much owed by so many to so few”.
never was so much
owed by so many
to so few
(nunca tantos
deveram tanto
a tão poucos)
4
Nem tudo que utiliza a linguagem poética é um poema, mas todo poema que merece o nome utiliza a linguagem poética – ou não seria um poema (como poderia sê-lo?). Porém, utiliza-a de um modo particular: a autonomização estética da linguagem poética.
Um poema é uma construção verbal erguida por relações morfossemânticas poéticas internas, no sentido de internalizadas, centrípetas. Ou seja, autônomas, não utilitárias, estéticas.
Isso não significa que sejam “pura” estética. Não existe pureza neste mundo. À diferença das notas musicais e das manchas de tinta na pintura abstrata não geométrica, palavras são referentes: sempre se referem a algo além de si mesmas. Mas significa que as características da linguagem poética têm, no poema, um valor e um fim em si. Um poema existe para ser um poema. Por extensão, para que a poesia (a linguagem poética feita arte) exista.
Se a linguagem poética não existisse, não existiriam poemas e não existiria a poesia. Um desenho não é um poema e não é poesia; uma escultura não é um poema e não é poesia; um fragmento de prosa não é um poema e não é poesia. Um belo pôr do sol não é um poema e não é poesia. Tentem outra prosopopeia quando se sentirem comovidos.
A linguagem verbal é morfossemântica, mas com domínio e predomínio da dimensão semântica sobre a formal: a fala e a prosa são pouco morfossemânticas, porque muito semânticas. A linguagem poética não sobrepõe a dimensão formal (salvo as exceções, como o concretismo) ou a dimensão semântica (como a poesia prosaica e cia.). A poesia é morfossemântica.
A figura por excelência da morfossemanticidade poética é a formosssemantirrima. Isso não significa que seja mais poética, em qualquer sentido. A formossemantirrima é uma rima que rima mais que a rima e mais que a semantirrima. Mas não necessariamente melhor. A melhor rima é a que rima melhor com o poema.
5
Décio Pignatari afirmou que a poesia se tornara uma espécie de xadrez. Não por exigir uma inteligência treinada e muito treinada (há a poesia fácil e muito fácil), mas por ser, agora, clubista. O xadrez interessa muitíssimo aos enxadristas, e menos que pouco ao resto do mundo. Assim também a poesia contemporânea. Além disso, a poesia é inútil, inclusive comercialmente, ao contrário das demais artes e linguagens (prosa incluída). Poesia não gera e não gira dinheiro. É ainda mais semelhante ao artesanato que ao xadrez. Poetas são como artesãos de praça pública, expondo seus livros sem valor de mercado em cantos de pequenas livrarias literárias como tardo-hippies as suas poucas peças sobre puídos panos coloridos (uma diferença é existirem mais poetas que artesãos de praça pública – e mais editoras de poesia que praças públicas). Poesia, afinal, é artesanato verbal. No entanto, em um grande arco que vai dos poetas arcaicos aos modernos, pouca coisa era mais relevante. Na antiguidade ágrafa, os poetas eram a memória viva da tribo. Seu repositório cultural, histórico, linguístico, mítico, teológico, ideológico, político, legislativo. Dante realizou uma espécie de síntese superior da cultura europeia do Medievo. Shakespeare deu corpo e mente e voz ao homem moderno. Para Eliot, a poesia mantém vivas as possibilidades da língua. Em qualquer caso, não se trata de qualquer utilidade, no estrito sentido pragmático, mas de grandeza cultural. Algo se perdeu. Muito se perdeu. Tudo se perdeu.
A poesia se tornou irrelevante. A exuberância de incontáveis “poéticas” irrelevantes, uma das causas e uma das consequências da irrelevância da poesia, não compensa a perda, como pretendem os entusiastas, que veem no quadro geral o fácil crescimento de tais “poéticas” fáceis e facilmente o aplaudem. O que alimenta o próprio processo de tornar a poesia cada vez mais irrelevante, através, entre outras coisas, de irrelevância paralela da crítica de poesia. Para que a crítica de poesia? Como a crítica de poesia? Não há crítica sem parâmetros mínimos. Não há mais parâmetros mínimos. A irrelevância da crítica fecha o círculo da destruição dos critérios, e saímos afinal da poesia para o carnaval. O carnaval democratista da larga e gostosa avenida aberta por tais “poéticas múltiplas”, em que todos têm o direito inato de desfilar como e quando e quanto e onde queiram, e todos desfilam, e ninguém tem compromisso com nada (é carnaval) além do próprio ego e do bloco de egos que integra e ao qual se entrega, reforçando um mesmo refrão. Em meio ao carnaval, o bloco vai, en passant, frequentando lançamentos, premiações, redes sociais, resenhas, releases, mas não interessa a ninguém além dos próprios poetas, amigos, namoradas e acadêmicos do samba (quem quiser que mude o gênero gramatical dos substantivos: é irrelevante). No entanto, a poesia interessava muitíssimo ao chamado “público leitor” até o século XX. E esteve no centro dos principais movimentos artísticos modernos.
Muitos (Drummond, Cabral etc.) apontaram o início do processo nas mesmas revoluções modernistas do início do século XX. A linguagem poética estética, a poesia, era parte central do campo da arte. Uma parte estendida, esteticamente, intelectualmente, culturalmente. Era um dos centros de gravidade da cultura. Em meados do século XIX, quando um desconhecido Rimbaud adolescente, de sua cidadezinha do interior da França, enviou para Verlaine, já um poeta consagrado (havia poetas consagrados e caminhos claros de consagração), alguns de seus primeiros poemas, Verlaine e seu círculo os leram, reconheceram o grande talento do jovem autor e se organizaram para trazê-lo a Paris (Rimbaud não tinha dinheiro nem para a passagem de trem). O resto é história. E dessa história (ou seja, dessas condições históricas) e dessas histórias nada resta.
“O Modernismo permitiu que quem não sabe escrever poesia escreva” (Drummond, se não me falha a memória). Pode parecer surpreendente, principalmente para quem não imagina que se tenha de saber fazer o que se queira fazer. Mas assim como não se nasce sabendo escrever, não se nasce sabendo escrever poesia (nem se pode aprender sem saber do que se trata). Mas como pode, afinal, quem não sabe fazer algo fazê-lo? Fazendo-o mal, ou fazendo uma coisa e afirmando fazer outra. Deram-se os dois: a poesia passou a ser feita mal, menos, diminuída, diluída, facilitada, sem força, pertinência, espessura ou abrangência, e o substantivo passou a ser aplicado a incontáveis outras coisas, todas devidamente fáceis. Enquanto isso, a poesia – a linguagem propriamente poética – perdia seu campo histórico-cultural de pertinência e seus muitos leitores. Tornou-se a diluição de resíduos que é hoje.
A causa original foi a melhor possível. Assim com a pintura, a poesia se fossilizara, no fim do século XIX, em formas, semânticas, vocabulários, usos e costumes rígidos, que além de rígidos não davam conta da vida moderna, em que nada mais teria rigidez. Era preciso uma revolução de formas, semânticas, vocabulários, usos e costumes. Na pintura, isso resultou no fim da perspectiva clássica, do academicismo e da pintura exclusiva de ateliê, e na busca da luz natural, e no impressionismo, no cubismo, na abstração e em toda a arte contemporânea, desaguando afinal num vale-tudo em que tudo vale, mas nada vale coisa alguma (a não ser em dinheiro). Um caso clássico de hýbris, de descomedimento. De forma mais simples: de criança jogada fora com a água suja do banho. A criança se foi. Resta a água suja. Isso explica o estado entre confuso, ridículo e venal das artes plásticas contemporâneas. O mesmo se deu com a poesia (à exceção da venalidade: a poesia não tem valor de mercado, para júbilo dos pobres poetas pobres “antissistema”).
A revolução dos modernismos era necessária. O niilismo final, não.
A poesia tornou-se irrelevante: não era.
Não era necessário (inevitável).
Qual, então, a possível relevância, ainda, de uma discussão sobre a rima, a recorrência, a própria poesia?
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[1] Paulo Leminski. Tentar enxergar algum na coisa na água turva restante no fundo.
[2] L. D. “A xícara de Magritte”. In O fim do mundo ocidental. São Paulo, Quatro Cantos, 2026.
[3] CAMÕES, 1982, p. 70.
[4] “A razão da poesia”. In Eutomia, revista de literatura e linguística. Pernambuco, UFPE, 2012. V. 1, n. 09, pp. 167-206. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/EUTOMIA/article/view/883/665.
[5] “Le sanglots longs / de violons / de l´automne / blessent mon coeur / d’une langueur / monotone” (Paul Verlaine,“Chanson d´automne”).
Luis Dolhnikoff publicou os livros de poemas Pãnico (apresentação Paulo Leminski; São Paulo, Expressão, 1986), Impressões digitais (São Paulo, Olavobrás, 1990), Lodo (São Paulo, Ateliê, 2009), As rugosidades do caos (apresentação Aurora Bernardini; São Paulo, Quatro Cantos, 2015 – finalista do Prêmio Jabuti 2016), Impressões do pântano (São Paulo, Quatro Cantos, 2023) e O fim do mundo ocidental (apresentação Alcir Pécora; São Paulo, Quatro Cantos, 2026). Traduziu Arquíloco (Fragmentos; São Paulo, Expressão, 1987, ed. bilíngue), James Joyce (Poemas: Chamber music; São Paulo, Olavobrás, 1992, ed. bliíngue), Allen Ginsberg (Uivo; São Paulo, Globo, 2012, texto integral) e A Torá (São Paulo, União do Judaísmo Reformista, 2021, texto integral). Entre 1990 e 1994, co-organizou, ao lado de Haroldo de Campos, o Bloomsday SP, homenagem anual a James Joyce. Organizou, apresentou e publicou a Poesia Completa de Orides Fontela (São Paulo, Hedra, 2015), autora homenageada da FLIP 2026.