Coluna Guido Viaro: 9 poemas

Ilustração: Vladimir Kush


 
A neutralidade do universo pode parecer devastadora.
Somos parte desse descampado sem bordas,
Mas por percebê-lo, e percebermo-nos, a ele nos opomos.
A vida então se afigura uma batalha contra o chão que nos sustenta.
Esse paradoxo faz com que muitos escolham um dos lados
E se esqueçam do outro.
Mas um bom observador,
Que fixe seus olhos em uma rosa ao meio-dia,
Molhada pela luz que faz seu vermelho se transformar em lâmina,
Pronta para rasgar o mundo,
E depois encontra a mesma flor engolida pela noite,
Envolvida por uma timidez de onde escorrem os suores do orvalho,
Perceberá que a matemática do real possui outras profundidades,
E os peixes que habitam esse oceano,
São aquilo que ao homem sucederá.
 
***
 
Não é com ideias ou pedras que se constrói o real.
Ele nasce a partir de combinações:
A brisa soprando a relva,
A roda da bicicleta sobre o asfalto,
Ou o grito do ganhador da loteria.
Acontecimentos gerando consequências
E ondulando as águas da lagoa.
Existir é movimentar,
E para que o movimento aconteça são necessárias duas pontas.
 
***
 
Sobre o convés do barco que flutua em mar aberto,
Alguém contempla o céu e depois o mar.
Reflete sobre fronteiras
Para então perceber a confusão de cores borrando o horizonte.
A paz invade a alma do observador,
Que se nesse instante estiver sendo observado,
Seria ele mesmo confundido com o mar, o céu, e o baile de cores.
Que são brilho e tempo.
 
***
 
Há uma equação matemática que a tudo explica.
Da queda de uma folha amarelada a um encontro inusitado.
Do estalo na fechadura ao voo cego do morcego.
A órbita do cometa, ou o número escolhido pela bola da roleta
Também obedecem a essa fórmula secreta.
Essas cifras e sinais estão em toda parte,
Incrustadas em um grão de pó ou desenhadas nos vapores das nuvens.
Aos olhos humanos, acostumados a lágrimas e luzes,
Abre-se a possibilidade, ainda que ínfima,
De encontrar escondidos embaixo de iniquidades,
O fio que costura a inteira realidade.
 
***
 
Os dedos do tempo abraçam o homem,
Tolhendo-lhe a liberdade.
Viver é espernear dentro da mão,
Até que ela canse e nos deixe cair no chão.
Desabamos dentro do vazio porque o fim dos dias
Sepulta em si qualquer espécie de distância.
O ser, então, sem parâmetros ou bordas, existe,
Distante de verbos, soberano como grande flor vermelha
Flutuando dentro da noite.

***
 
A cada passo arrasto
Mechas de esperança que não deixam traço.
Única testemunha da própria persistência,
Escolho caminhos entre as possibilidades da existência.
O movimento carrega arrependimento,
Pois os passos não dados pesam como inútil urdimento.
Sou espremido entre a promessa e o castigo.
Esse é o caminho, para iniciá-lo, atravesso o postigo.
 
***
 
Sobre o leito, água e movimento,
Sol e nuvens arrastadas descansam quando a esfera branca
E silenciosa flutua junto com mosquitos
Sobre a penumbra que separa mundos.
O peixe alaranjado procura comida entre plantas fluviais.
No barco a remo o menino de quatro anos acompanha seus pais.
O fugidio instante em que o peixe para a criança nasceu.
Viverá tanto quanto o rio e a lua.
 
***
 
O homem pode passar a vida riscando a terra dura
Com uma pá e seu suor.
De repente, a terra amolecida aumenta a velocidade com que escava.
Olhos e músculos reluzem, e o ritmo da pá
É uma sinfonia não escrita.
A vida escala seus ossos, espalha-se por órgãos
E funde sua cabeça com o céu que a envolve.
 
 
***
 
As manhãs azuis não distinguem séculos.
Sobre elas sopram brisas frescas que depois se deixam aquecer.
As cores acompanham a mudança,
Alaranjados mergulham em poças verdes e
Gotejando lilases pintam ruas e horizontes.
Apenas alguns olhos entre muitos, espalhados por todas as épocas,
Conseguem perceber a substância invisível sem formas ou odores,
Que silenciosamente atravessa o céu matinal.
Ela é o tempo. Nu. Completo.
Carregando em seu ventre pedaços de todos os que por ele foram
Destruídos.





Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *