A resistência ao caos na poesia de Adriano Wintter: Susanna Busato



Poesia é combate. Político, ético, estético. Justo e necessário. No sentido da luta com as palavras para desalojá-las do banal da linguagem, do já dito, do sentido desgastado, da melodia já decorada, para, ali, frequentar o novo, o diferente.

Para exercer sua fantasque escrime (Baudelaire), Adriano Wintter lança mão de uma estratégia em seu livro Sobre a queda de uma pétala (Editora Lumina, Porto Alegre, 2025). Por meio da preposição “sobre”, do título, o livro é estruturado em termos de uma ótica objetiva que se desdobra nas suas partes, chamadas de “Tratados”, subdivididas em “artigos” (“art.”), que, por sua vez, se repartem em “parágrafos”(“ §”). É a linguagem dos documentos jurídicos, dos compêndios de leis, de decretos, de editais, cujas marcas se expõem e que, no livro, provocam um estranhamento.

Essa escolha original organiza uma moldura que isola o poético do mundano, circunscrevendo-o num contexto de rigor, que é observado pelo plano sintagmático dos versos onde as escolhas lexicais se amoldam ao ritmo e à metrificação e, também, aos encontros sonoros das sílabas e fonemas, orquestrados por meio de uma pauta que pouco tolera contrastes, porque centrada está num projeto coeso de construção de reflexão crítica sobre o éthos da poesia.

De modo geral, poderíamos compreender a escolha como a sugestão de um “tratado poético” a representar o “ser” da poesia. A proposta exigiria, portanto, um distanciamento para com seu objeto, por isso a objetividade como caminho enunciativo, apesar do gesto singular e subjetivo de observação do fenômeno: a queda de uma pétala. E é aqui, nesse gesto perceptivo, que se instaura uma linguagem ritualística que descreve as faces e o mistério dessa queda. De um fenômeno banal, assiste-se a um mergulho no devir desse objeto, cuja imagem o leitor atento identificará como parte de um todo maior.

Oriento sua leitura para a imagem da pétala-flor-poesia que se forma no livro. E, também, para o fenômeno da queda. Num primeiro momento, poderíamos pensar numa queda no sentido negativo, no desprendimento da pétala de seu contexto em razão do tempo de vida e perecimento, fraqueza provocada por um vento maior qualquer, causando sua falência. Facilmente o tom melancólico poderia advir. Mas não é dessa queda que trata o livro.

Sobre a queda de uma pétala descreve em imagens as várias faces dessa pétala-flor-poesia em seu movimento de queda livre. Nada de languidez no gesto, mas de luta e combate. A queda é uma metáfora para a ação transformadora. O sublime da poesia, para o poeta, é somente alcançado ou, no mínimo, arquitetado segundo um juízo ético: o compromisso com o ser da poesia, sua identidade, como está marcado no Primeiro Tratado – Éthos, no § 1.º do art. 1) pétala adversa. No poema, a pétala/poesia é descrita como “luz egressa” que “fulgura” […] contra pedras”. Assim é concebida a pétala como “ruptura” na sua queda. Impõe-se, portanto, desde o início do livro, o éthos desta que cai e sua função de combate (movimento “contra” – “foz de fuga”), que, mais adiante no livro, no Quarto Tratado – Sete Prélios, será amplamente e meticulosamente construída.

Por exemplo, no § 1.º do art. 1) pétala bélica, dessa seção do livro, a pétala/poesia adquire a imagem do combate no “radioativo / lirismo” que lança sobre “a superfície / impassível / do conformismo”. Também no § 2.º, transforma-se em “míssil mínimo” que se projeta “a explodir / o país / floricida” ( § 3.º), ou em “gentil dinamite / rompida no espírito” (§ 4.º); e ainda em “florido explosivo” (§ 5.º), que “fuzila / com mira / exímia / as infantarias / noctígenas” (§ 6.º); para, enfim, definir-se como “belígero florículo” (§ 7.º). A força dessa pétala/poesia é épica, heroica e essa categoria é descrita no art. 2) pétala épica do Quarto Tratado.

A poesia de Sobre a queda de uma pétala arquiteta o movimento da queda como a imagem de uma pétala-flama, que voa e atravessa o labirinto do poema. Dá-se a ela um valor ascético, místico, cujo objetivo é o de “dirigir / o ínfero / ao sublime”, como enuncia o § 2º do art. 6) pétala ascética, do Quarto Tratado. Em outras palavras, diria que a poesia urdida no livro de Wintter busca na imagem forjada da queda de uma pétala uma busca pelo sublime. Assistimos a um movimento de queda que se traduz imageticamente numa ascensão a um outro espaço possível de expressão do poético. É o que o livro performa no movimento rítmico dos versos, na sua concepção métrica, no aspecto ritualístico que o traço sonoro importa, na escolha muitas vezes deliberada de sons semelhantes que se repetem num mesmo espaço. É o que o livro performa no processo que expressa o desejo do sublime. Este é ensaiado, também, no traçado das palavras elaboradas, pinçadas de um paradigma seleto a que o poeta meticulosamente escolhe para lhes dar, no poema, uma força de encantamento. O sublime a ser alcançado estaria, portanto, na técnica, na escolha formal dos versos que encontram na métrica breve o ritmo da imagem proposta: da queda, cuja duração do trajeto é seguida de perto pela reflexão.

A queda não é impune, portanto. Há engenharia no gesto. E desejo. A busca pela poesia passa pela trajetória do sublime. E esse processo é marcado pelo encantamento: observação admirada e reflexiva do poeta a partir do movimento da queda de uma pétala (a epígrafe do poema de e.e.cummings é escolhida com base nesse elemento de afeto); pela consciência estética do valor que representa: seta, flama, fuzil, a sugerir sua força interna atrelada à sua aparência delicada; pelo compromisso ético do poeta para com o objeto de seu fazer: a poesia em si.

Ao mencionar o movimento da pétala na sua trajetória paradoxal de queda e ascensão do “ínfero ao sublime”, no § 2º do art. 6) pétala ascética, do Quarto Tratado, sugere-se que a busca pelo sublime está atrelada à ruptura com a mediocridade: “pois a pétala / quando investe / sobre a terra / faz o inverso / de sua queda: / ela eleva / tudo ao belo / e oferece / contra o fero / fosso infecto / refrigério / céu e fé”, § 3º do art. 3) pétala profética, do Quarto Tratado.

Ler a poesia de Adriano Wintter neste livro é tarefa de fricção de repertórios, o do poeta e o do leitor. Tarefa cuja energia cinética e de vertigem arrebata para um universo transformador que nos lança para a revelação de uma ascese: a queda de uma pétala, traduzida num fenômeno estético e ético, aponta, no seu trajeto, para o sublime e promove uma reflexão sobre o poético e sua razão de resistência ao fácil. E, cá pra nós, precisamos muito disso.




Susanna Busato é graduada em Língua e Literatura Portuguesas (1982) e mestre em Comunicação e Semiótica (1991) pela PUC/SP, doutora em Letras pela UNESP/São José do Rio Preto (1999), com pós-doutorado em Linguística pela USP (2012). Realizou estágios de pesquisa na Universidade de Paris−Sorbonne IV e na Yale University. É Professora Assistente-doutor na UNESP/SJRP, área de Literatura Brasileira (Poesia) e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura – ARLEC. Poeta, publicou os livros: Corpos em cena (Patuá, 2013 finalista do 56.º Prêmio Jabuti), Moldura de Lagartas (Selo Demônio Negro, 2020) e Papel de Riscos (Centro Cultural São Paulo, 2013).


Adriano Wintter (Porto Alegre, 1971) é poeta e tradutor, autor de A Busca da Luz (1992), Luz Léxica (1993–1995), Apotheosis (1996), Polimusa (2010), Mero Verbo (2010), Porto Alegre Desolada (2011), Clara Mimese (2012), O Ciclo do Amor Recomeça (2013), Ágrafo (2014), O Plectro & as Horas (2015), Quórum da Luz (2016), Sob o Baque do Belo (2017–2021), Totelimúndi (2022), Suma Lúcida – Poesia Reunida (2023) e Sobre a Queda de uma Pétala (2025). Foi traduzido ao inglês, francês, espanhol e catalão, colaborando em revistas da Espanha, Portugal, México, Argentina, Chile e Colômbia; além das publicações nacionais, como a Revista da Academia Brasileira de Letras, Sibila e Suplemento Literário de Minas Gerais. Traduziu José Kozer (Cuba), Fernando Bensusan (Espanha) e os uruguaios: Victor Sosa e Alfredo Fressia, entre outros.

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