Relâmpagos: Perce Polegatto

Imagem: Fernanda R. Mesquita, Menino ante a vidraça. 2011.

Quando penso em minha infância, vejo um menino atrás da vidraça numa noite tempestuosa – rosto sem sorrir, olhos iluminados por relâmpagos que o fascinam.
 
O relâmpago irrompe das nuvens, ramifica-se no céu, e eu vejo um menino cultivando, entre outras maravilhas, sua árvore de ovos, a que no verão reluz como um arranjo de pérolas ao longe; no outono, deita cascas ressequidas; no inverno, põe-se uma árvore como outra nua qualquer (os que passam ignoram seu segredo de sementes); e, na primavera, ostenta grandes formações, dentro das quais se adivinham gemas suculentas. Dragões emergem das chaminés. Cogumelos na relva. Há também a marcha de partículas de poeira rumo ao Sol.
 
O relâmpago cai das alturas, precedendo o estrondo que lhe corresponde, move a terra, e eu vejo um menino mudo. Se não sorria, hoje menos se vê em seu rosto. Pensa que a madeira da janela tem atravessado o tempo, e os carpinteiros e os vidraceiros estão todos mortos. Uma janela que, sendo a mesma, abre-se para esta noite tempestuosa que é hoje noite (não mais), tempestade (não mais), vidro por si só.
 
O relâmpago fende a noite suspensa, e eu vejo um menino contra seu próprio reflexo, gotas escorrendo de seus olhos ou lágrimas de chuva, pois vê atrás de si uma mulher. Simplória e malvestida, encosta-se a um muro, porque não tem casa, e ali, a despeito das adversidades, do desamparo e do trauma de abortos anteriores, chora de dor e de prazer ao externar seu êxtase. Começa a chover. É um menino.
 
O relâmpago bifurca-se, triparte-se no céu, e eu vejo um menino entretido em não apenas registrar, aproveitando-se do luminoso labirinto que lhe proporcionam as tormentas: vivenciar, supondo-se à parte do tempo e das casas, o que possa minar os homens como a umidade na fresta das molduras de todas as janelas e infâncias.



Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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