Tanto em nada: a poesia flexiona nosso vazio, por Sebastião Ribeiro



Capa : Guilherme Peres
(www.editoralitteralux.com.br)




Este ‘Gestos do nada’ me recorda um verso de Bandeira: ‘— Não quero mais saber do lirismo que não libertação.’ Recordei-me dele pois tem sido mote, razão e norte de minha própria busca poética. E sinto a mesma coisa ao ler os poemas de Geovane Monteiro.
 
Nós, outsiders, sofremos de inadequações: uma luta sem gritar de espadas ou armas, mas que nos marca profundamente. Entre os outsiders que se permitem a poesia, alguns vivem para escrever, outros escrevem para viver. Ainda que se perceba um tom de escape e recolhimento nos próprios pensamentos e palavras, neste livro há um equilíbrio. Consciência que nem a todos chega.
 
Natural que a dúvida, o mistério, a incomunicabilidade e o inalcançável permeiem o livro. Isso é fato pessoal de muitos e evidência, marca dos tempos e contratempos das Histórias no ser humano. Como tentativa de alívio, compreensão dos dias insensíveis, o poeta se resguarda, reflete, congemina uma espécie de fuga:
 
‘enquanto dá o céu
aos homens e aos anjos
fins em si mesmos
vagueio verbos
que rendem mais’
(Depois das horas)
 

‘por detrás do detrás
um mistério
tão presente
na sua natureza intacta
que se reverte
para minhas realizações’
(Vagar)
 

Tomo também alguns versos do poeta como um choque entre viver e existir e o quanto da vida se torna poesia e qual é (se há) o limite entre o correr dos dias e o correr de palavras, quais impedimentos um impõe ao outro:
 
‘vida vivida quando procura canal
um relinchar um bater de asas
um circadiano de florestas sendo outras
localizações nos barulhos de ausências
o perdão sem dono
quando a poesia errou’
 (Depois das horas)
 
Ainda que se resguardar na poesia, no quase oaristo com as palavras, possa trazer conforto e entendimentos, é expor-se ao mundo, expor os machucados, que nos imerge neste tipo de contemplação da dor e emaranhamento com tantos outros aspectos da vida. Assim, podemos relativizá-la, racionalizando-a, para apesar das aparentes fugas, vivermos:
 
‘discursos transbordam aquários
escorrem pelas obras-primas do tráfego’
 (Espetacular)
 
Fazer poesia na conjuntura atual parece um ato no vazio. Tomadas as devidas proporções, um tiro no escuro. A voz de Geovane Monteiro transita entre o recolhimento da autocomposição e o gritar beleza pelos corredores. Em se deixar alucinar pela constatação do nada e o nadar no vórtice dos pensamentos, o poeta assegura sua razão de escrever por ser antena da ‘raça’, diria Pound.
 
Muito me agrada — e espero que a seus leitores também — a força que a poesia de Geovane Monteiro demonstra em ‘Gestos do nada’. Seus jogos de linguagem vão muito além de tropos básicos e contidos em si, são expressões racionalizantes do homem em seu caminho, dos mistérios que guarda e aguardam-lhe; mas ainda assim, há ternura, sangue correndo, a empreitada que nos estimula enfrentamentos — pela vida e pela poesia.
 
 

 
 

G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), o de poesias Depois das horas (2021).





Sebastião Ribeiro (São Luís – MA) é poeta e professor de Língua Inglesa, graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão. Premiado com o 2º lugar do 23º Festival Maranhense de Poesia Sousândrade (Poemará 2010), organizado pela Universidade Federal do Maranhão. Publicado em antologias, diversos espaços virtuais e revistas literárias, como Macondo, Samizdat, Mallamargens, 7faces, entre outras. Componente da obra Acorde (Scortecci, 2011), com Igor Pablo Dutra e Wesley S. S. Costa; autor de & (Scortecci, 2015), Glitch (Scortecci, 2017), Memento (Penalux, 2020), Ménage – Antologia Trilíngue de Poesia (Helvétia Éditions, 2020), com Antonio Aílton, Outro (Penalux, 2022), Solo (Litteralux, 2024 – premiada com o 2º lugar do Prêmio Claudio Willer de Poesia 2023, realizado pela União Brasileira de Escritores (UBE-SP) e finalista do 2º Prêmio Candango de Literatura) e Limbo (Litteralux, 2026).

Respostas de 2

    1. Prazer meu deste grande presente: o prefácio. Soube pegar no ar a atmosfera poética do meu livro, Sebastião Ribeiro!

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