
A CORAGEM DO POEMA
Cachorros não me fazem companhia nesta íntima solidão.
Tenho saudades da mulher que me abençoava de longe.
Durante quarenta e oito anos acreditou no meu amor.
Já não perturba saber
que o homem de trinta me ignore.
Aceito a conjugação serena do verbo.
Minha solidão jamais teve cheiro de gato
nem tenho coragem de aprisionar aquele canário
que se faz cativo.
Meus amores sempre passam.
É COM VOCÊ QUE FALO
O amigo oculto não me surpreende mais.
E olho fora do corpo a cara da manhã:
meu consolo vem em fatias de queijo muçarela
guardanapo marcado de batom e lágrimas.
Quando pensava que aquela seta viria definitiva,
descubro que ela está em todas as praias.
Não saio ilesa de nenhum naufrágio.
PARALELAS
O vinho não envelheceu o suficiente
para que o percurso no teu corpo
tivesse os odores, a sombra das parreiras
tão comuns no grande amor.
Duzentas e dezessete vezes exagerei nos riscos,
ora singrando, ora madura.
Nunca deixei de ouvir o que cantava em mim.
Mas as uvas não tinham peso, a doçura que deveriam.
Vomita-se o vinho ou a fruta?
OUTRA LEITURA
Aceitei o silêncio humilhada de certas falas,
a mania de varrer o lixo para debaixo do tapete,
as lágrimas fortes como a água do chuveiro.
Às vezes ama-se mal.
E o poema não consegue ter
a elegância, a altivez de uma garça.
É só um rato.
POEMA À MODA DE SHAKESPEARE
O meu feio Romeu não me reconhece mais.
O tempo envelheceu aquele corredor de lua,
no amplo apartamento do Jardim Botânico
quando inundada de estrelas o esperava.
Adorava meus pés,
mas naquele 27 de janeiro de 2011
sequer olhou para os sapatos que eu usava.
Tinha mania de me fotografar deitada.
Nunca levou nenhum negativo.
Se revelava inteiro dizendo de cor
os poemas de amor de Castro Alves.
Tive todos os motivos de ser feliz
naqueles braços magros,
em cima daquele homem liso, sem pelos.

LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.