
Um homem morreu e uma criança nasceu. Afora isso o mar e tudo o que se enxergava do alto do rochedo permaneciam como sempre foram. As reuniões continuaram acontecendo e as mulheres que as frequentavam já eram três. Os temas também se expandiram, além de assuntos administrativos e filosóficos, havia também os exploratórios. A possibilidade de descoberta de outros horizontes fascinava os moradores que pensavam seriamente em organizar uma expedição com o objetivo de descobrir novos lugares e, talvez, entrar em contato com outras civilizações.
Era nesse ponto que havia discórdia, muitos afirmavam ser perigoso um eventual contato. Talvez tivessem pouco a ganhar e muito a perder. Se decidissem avançar mata adentro, precisariam se armar. Ao mesmo tempo, alguns homens também armados teriam de ficar no vilarejo para protegerem mulheres e crianças. Duas das mulheres que participavam da reunião afirmaram que gostariam de integrar a expedição e não se importariam em carregar armas. Os debates prosseguiram durante vários encontros, sem que nenhuma atitude prática fosse tomada. Aconteceram alguns pequenos avanços na mata, onde um grupo de quatro homens caminhou até decidir que precisavam voltar antes que o sol se pusesse. Nada de diferente descobriram, as árvores, os pássaros eram os mesmos que se encontravam ao lado do vilarejo.
Essa percepção acabou irritando o grupo daqueles que queriam pôr a aventura em prática imediatamente, alguns desses deixaram de frequentar os rochedos e iniciaram reuniões paralelas ao lado do lago, que dava de frente para a mata escura. Mas havia homens que não achavam que a verdade estava com nenhum dos dois grupos, talvez estivesse dividida, e a cegueira política evitasse que enxergassem as virtudes das ideias que não eram suas. Entre esses homens estava aquele que desejava realizar os experimentos com sonhos. Acreditava que ali era a toca de um grande segredo. Era por ali que se iniciava o caminho das descobertas, e o que encontrariam talvez nem fosse reconhecido, pois jamais havia sido imaginado. E isso era fascinante.
Foi acompanhado em seu entusiasmo pelo jovem aventureiro que, apesar de ser um dos mais interessados em viajar fisicamente, concordava que essa outra viagem poderia ser muito mais interessante. A primeira moça a frequentar os rochedos também se uniu ao grupo e levou consigo sua irmã mais nova. Dois outros rapazes aceitaram o convite e o grupo contava com seis participantes. Um número expressivo para uma comunidade tão pequena. O que acabou gerando desconfiança entre aqueles que não participavam. O líder passou a ser malvisto e foi ignorado pelo grupo do rochedo e por aqueles partidários da expedição física.
A divisão em três, de uma comunidade tão pequena, teve consequências imediatas. As aglomerações diminuíram, a integração de crianças reduziu-se. Nunca aconteceram brigas ou discussões abertas, mas o clima de amizade universal que vigia na antiga aldeia deixou de existir. Alguns daqueles que procuravam utilizar o pensamento para obter respostas para questões pouco práticas, agora tentavam usar da mesma técnica para resolver o desarranjo social que havia tomado conta da pequena comunidade.
Inutilmente. O tecido parecia haver sido rasgado e cada tentativa de emenda ocasionava novos buracos. Talvez aquilo fosse assim mesmo, a paz reinaria até envelhecer e depois seria a vez das disputas e divisões prosseguirem, até finalmente perderem a força, e a paz voltar a reinar. Seguindo esse raciocínio, um dos homens do rochedo concluiu que, como nada era para sempre, um dia as grandes dúvidas derreteriam, e suas respostas se tornariam tão evidentes quanto o nascimento do sol todas as manhãs. Entre ele e essas respostas, parecia haver um imenso paredão, infinitas vezes maior e mais imponente do que aquele em que estavam. Sentiu uma vontade de nominá-lo. Com um graveto espalhou vogais e consoantes na areia do alto do rochedo, areia que era parte do rochedo, pedaços que durante muitos dias e noites acabaram se desprendendo e depois derretendo. Juntou letras, depois as apagou, fez várias tentativas até finalmente encontrar uma combinação que o agradou e que fez questão de ler em voz alta: “Tempo”.
Foi a partir desse dia, ou dessa noite, que o tempo passou a ser contado. Inicialmente dividido apenas em dias, depois em frações maiores e menores que também receberam nomes. Isso influiu diretamente no funcionamento da pequena sociedade, que passou a prestar mais atenção às posições do sol, que até então era a única maneira de determinar horários. Os dias nublados passaram a ser motivo de angústia para alguns moradores, que apegados à nova norma, sentiam dificuldades em determinar os horários corretos. As reuniões no alto do rochedo ficaram marcadas para um décimo da luz solar após o pôr do sol. As medidas ainda eram pouco eficientes, e no princípio geraram muita confusão, pois tudo o que acontecesse após o pôr do sol, precisaria ser avaliado por cada indivíduo.
Muitos disseram que essas marcações e a necessidade de obedecê-las não trouxeram nenhum bem para a comunidade, apenas criaram uma ansiedade que antes não existia. Outros argumentaram que o tempo sempre existira, e que o problema não residia nele, mas no fato de amarrá-lo a uma existência social e determinar que todos deveriam obedecer a essa invenção humana. Os críticos das explorações usavam como exemplo essa nova criação, contatos com outras civilizações poderiam significar amarras ainda mais apertadas.
Entretanto, não foram todos aqueles que aceitaram as novas regras, o grupo que planejava experiências com sonhos, não adotou o novo método e continuaram vivendo como antes da invenção. Estavam animados com as possibilidades que poderiam abrir. Decidiram não contar a ninguém sobre seus planos. Tudo aconteceria na maior discrição, e os resultados seriam anotados. Nenhum deles esperava que algo importante acontecesse logo na primeira noite. Poderiam transcorrer semanas, meses, talvez anos até que conseguissem encontrar algo consistente, uma constante que indicasse um caminho.
Mas não tinham pressa, as reuniões em frente à mata escura aconteciam, eles trocavam experiências, relatavam sonhos recentes, mas também outras ideias sem relação com o projeto. Um deles contava sobre sua curiosidade a respeito do envelhecimento. Como os velhos veem o mundo? Quais suas expectativas? Uma moça emendou as perguntas com outro questionamento: independentemente da idade da pessoa, seria possível alguém viver sem qualquer expectativa? Em caso afirmativo, essa pessoa, segundo os parâmetros vigentes no vilarejo, seria considerada avançada ou atrasada? Todos foram unânimes em responder que segundo a pequena sociedade, essa pessoa sem desejos seria considerada alguém inferior, que não deseja evoluir.
O silêncio se fez presente e foi rompido pelo homem mais velho, uma espécie de organizador do projeto: “Mas, de fato, despir-se de qualquer desejo, pode, em determinados casos, ser exemplo de grandeza.” O silêncio voltou a reinar e só foi rompido por algum pássaro noturno que bateu asas dentro da mata. Depois do susto uma moça tomou a palavra: “Concordo, em certas ocasiões, quem mais faz, é aquele que nada faz.”
O silêncio insistiu, e dessa vez foi respeitado, o grupo foi dormir com aquelas duas frases na cabeça. Um dos jovens permaneceu ao lado da mata. Escutou o suave murmurar das águas do lago, assistiu à caminhada das estrelas, apressadas para ocuparem seus lugares. Aos poucos, a paz foi sendo substituída por uma angústia que normalmente não encontra lugar nesses momentos de encontro entre homem e natureza. Mas ela estava ali, crescendo a cada instante, pulsando e enchendo seus pulmões com substância ácida. Derramou lágrimas inúteis e depois um grito, que serviu para agitar a fauna da mata. Desistiu do céu e deitou com as mãos cobrindo os olhos. Apenas o lago contava sua história repetida. E ele a escutou e escutou, até que o peito começou a aliviar, as lágrimas secaram e aquela noite morreu.
Não contou a ninguém sobre a visita sombria que recebera depois que todos foram embora. Temeu que fosse a primeira de muitas, mas decidiu que o melhor era não alimentar a fera faminta do medo, e continuar vivendo como sempre fizera. Mas sua curiosidade não facilitou esquecimentos. Por onde havia entrado aquela besta escura? Estava tranquilo e nada perturbava seu espírito. Apenas a menção de alguém que não possui expectativas teria sido motivo para destruí-lo daquela maneira? Sabia que aquela fera se nutria de medo. Não seria o medo de perder o desejo de sonhar, a chave que havia aberto a cela da besta?
Apesar da pouca idade, percebeu que um homem pode envelhecer muito antes do tempo, basta fazer concessões ao medo e fechar-se às surpresas. O mundo dos sonhos parecia um oceano mais vasto e profundo do que aquele que banhava o vilarejo. Também escondia feras, monstros e sereias muito mais estranhos, doces e coloridos do que aqueles dos mares.
Mas não conhecia a razão pela qual o medo havia se instalado. Em teoria, assim que abrisse os olhos, a mais temida das feras desapareceria como as nuvens do dia anterior. Sua existência prosseguiria apenas na memória. Seria ele mesmo, dentro de sua cabeça, aquele que se encarregaria de alimentar as feras que lhe enchiam de pavor. Era de si mesmo que precisava desconfiar. E de todas as escavações que fez, até pouco antes do nascimento do sol, essa foi a que mais próxima chegou da verdade: temia descobrir quem era, encontrar suas limitações, transformar em espuma as ondas de seu entusiasmo.
Se por acaso, as experiências com os sonhos, revelassem ao espelho, que seu corpo sustentava alguém que se aproximava de ser nada, que nenhum feito ou marca imprimiria em sua passagem pelo mundo, temia conviver por ainda muitos anos com essa figura condenada, temia a necessidade de criar personagens para suportar a realidade. Mentiras que precisariam ser renovadas todos os dias.
Com as primeiras luzes banhando a aldeia, ele entrou em casa aliviado. Havia enfrentado alguém, sabia que não seria o último adversário. Mas as lágrimas secas mostravam que suportara a disputa. Dormiu, e quando acordou não conseguiu se lembrar dos sonhos.
A aldeia estava mais silenciosa do que de costume, os grupos agora falavam entre si em voz moderada. Mãos cobriam lábios quando certos assuntos eram abordados. Mas as vozes não poupavam palavras ou volume quando o assunto era o grande medidor de tempo que seria construído na praça central. Com algumas pedras em círculo, delimitariam o itinerário do sol ao longo do dia. As sombras guiariam as necessidades humanas. E elas, as necessidades, acabaram sendo criadas a partir da aparição das sombras na praça central do vilarejo.
Um dos anciões dos rochedos comentou com seu amigo algo que lhe pareceu paradoxal, os meios se sobrepondo aos fins. O homem que havia descoberto a existência do tempo, pelo menos daquele tipo de tempo que acontecia dentro de um relógio de sol, acabava obedecendo a ele. Aquilo era como alguém possuir uma galinha, e quando fosse pela manhã colher seus ovos, a galinha se negasse a entregá-los e em bom-tom, pronunciasse essas palavras: “Esses ovos são meus, se quiser outros vá você pô-los, e a propósito, não aguento mais a comida que me dá, gostaria de um suculento bife acompanhado por batatas assadas.”
“O absurdo é livre para acontecer, tem a liberdade de se manifestar onde quer que seja. O impensável é que ninguém o perceba nem se revolte contra ele.” O ancião escreveu essa frase nas areias da praia esperando que alguém a lesse. Passou a tarde inteira assistindo o mar apagá-la sem que ninguém se aproximasse. Todos, agora, frequentavam seus próprios mundos e não tinham olhos para os vizinhos. Quando lhes sobrava alguma atenção, a dedicavam ao relógio.
O mesmo ancião percebeu outra modificação na sociedade. As pessoas já não eram exatamente elas mesmas. Pareciam viver partes de vidas alheias. Homens e mulheres eram, em variadas medidas, além deles mesmos, também pedaços de outros. E essas estranhas misturas modificavam-se conforme mudavam os interesses em questão. O velho homem não exerceu sobre essa constatação nenhum juízo de valores. Apenas concluiu que uma quantidade tão grande de mudanças em curto espaço de tempo poderia acarretar em graves desequilíbrios, onde o maior risco seria o da perda da própria identidade. A pouca informação e certezas que possuímos sobre nós mesmos acabariam esmagadas por esse novo comportamento que surgia no vilarejo.
Depois dessas constatações o ancião teve uma noite tranquila, sua última. Restos da frase escrita nas areias ainda podiam ser enxergados, mas eram sobras de palavras e cacos de letras que não compunham mais nenhum sentido. Foi enterrado em cerimônia que conseguiu unir toda a sociedade, mas que após o funeral voltou a se dispersar.
No dia seguinte, um dos amigos do ancião lembrou-se do que ele havia dito: “Os meios não podem ser mais importantes do que os fins.” Essa era uma frase muito importante para uma pequena sociedade que estava se modificando rapidamente, era preciso prestar muita atenção para que os detalhes não se sobrepusessem ao objeto. O homem não poderia tornar-se servidor de uma sociedade cuja única razão de existir era servi-lo. Mas o risco existia. E consistia principalmente no fato de que a maioria das pessoas não consegue organizar suas ideias em ordem de importância. Elas acabam colocando em primeiro plano aquilo que poderia esperar no fim da fila. Continuou o raciocínio, e chegou à conclusão de que a principal razão para que isso aconteça é que muitas pessoas sobrevalorizam os sentidos em detrimento do raciocínio puro, e da intuição. A sociedade não passava de uma imagem do conjunto de homens e mulheres, e se elas pensam e agem de maneira superficial, não teria como exigirmos algo diferente.
O homem pensou em levar essa pauta à próxima reunião do conselho. Era preciso pensar de maneira hierárquica, se assim as pessoas fizessem, a sociedade estaria modificada. O indivíduo era a única força capaz de gerar mudanças duradoras, todo o resto consistia em se fiar nos próprios sentidos e esperar soluções mágicas. O homem não foi na primeira reunião e na segunda permaneceu calado. Talvez precisasse amadurecer esses pensamentos. Nunca fora habilidoso com as palavras e isso poderia fazer falta na hora de ter de rebater argumentos contrários. Na terceira reunião pediu a palavra, mas ela não veio, gaguejou, sentiu falta de ar e acabou pedindo desculpas. Decidiu que não tinha certeza sobre seus argumentos e que iria esquecê-los, assim como a cada dia esquecia-se do amigo morto. Boas ideias nunca morrem, flutuam pelos ares até encontrar alguém com altura suficiente para alcançá-las, se ela fosse uma boa ideia, outra pessoa a revelaria, foi o que pensou.
Esse homem viveu ainda muitos anos, obedecendo à rotina que se impôs, como se fosse lei marcial. O relógio ditava seus movimentos e desenhava os caminhos que percorria. E isso estava de acordo com o que esperava. À noite, sonhava com os pequenos detalhes cotidianos. Ao meio-dia mastigava bem os alimentos e quando olhava para o céu era apenas para ver se nuvens carregadas se aproximavam.
Enquanto isso as experiências dos sonhadores se iniciaram. Sob o laranjal, que foi escolhido apenas como um símbolo e não pela lenda que o acompanhava, a cada noite, três diferentes pessoas dormiam, o grupo crescera e já contava com nove pessoas. Três turnos de sonhadores, que na quarta noite se reuniam em frente à mata para contar o que tinham sonhado e tentar descobrir algo que pudesse sair de dentro daquela porta escura.
A primeira reunião foi desanimadora, a maioria disse que se lembrava vagamente dos sonhos. Um dizia não se lembrar de nada e os outros contavam histórias exatamente iguais às que contariam se estivessem dormindo em suas casas sem se preocuparem com sonhos. O líder do grupo acalmou os participantes, aquilo era um longo processo, corpos e almas precisariam se adaptar até que algum resultado interessante aparecesse.
Na segunda reunião os resultados foram parecidos, com exceção de uma moça, que disse que havia sonhado que passeava pela aldeia durante a noite e tinha encontrado consigo mesma dormindo. Pensou em despertá-la, ou despertar-se, mas temeu pelo resultado do encontro das duas, que eram, pelo menos aparentemente, uma só. Os outros escutaram a história da moça com bastante interesse e isso os estimulou a continuar buscando, o quê, exatamente, não sabiam. Aconselharam-na a, em caso de repetição do sonho, acordar-se, ou então acordar algum dos outros que dormiam ao seu redor, que segundo ela, eram as mesmas pessoas que estavam fisicamente ao seu lado.
Na terceira reunião, o mais inquieto dos jovens do grupo, disse que tivera um sonho revelador. Quando perguntaram o que o sonho revelara, não conseguiu responder. Apenas narrou-o com detalhes:
Acabara de dormir e dentro do sonho, percebi que tinha acordado. Estava exatamente onde havia adormecido, e assim como no sonho da moça, os companheiros que dormiam ao meu redor eram exatamente os mesmos. E até estavam vestidos como quando ainda estávamos acordados. Lembro que nesse instante uma ideia me ocorreu, o tempo que passara a recentemente ser adotado na aldeia, aqui não existia. Se aqui existia alguma forma de tempo, era de outra ordem. Não há constatação de sua passagem, o que talvez seja a maior marca que o tempo deixa quando estamos acordados. Do lado dos sonhos, o tempo apenas disciplina a sucessão de acontecimentos, serve de corda aos alpinistas que estão perdidos em uma tempestade de neve. Mas afora isso é um fator completamente secundário.
Como dizia, acordei, reparei que os outros ainda dormiam, e, sem me lembrar ou perceber que ainda estava dormindo e que aquilo não passava de um sonho. Fui caminhar pelo vilarejo, ainda era bem cedo e as pessoas, aos poucos, acordavam e iniciavam o novo dia. O sol nascia como uma criança prematura que, passados os primeiros dias, ganha peso e força, e passa a acreditar que pode ser um sol forte que não vai se deixar vencer facilmente pelas nuvens. Cumprimentei alguns moradores, vi mulheres lavando roupas no lago, duas crianças brincando, um homem trabalhando na horta.
Depois fui passear na praia, ver as primeiras sombras que o novo dia projetava, vi um barco de pescadores voltando e descarregando os peixes. O dia transcorria como qualquer outro. No alto do rochedo pude ver a figura de um homem olhando sozinho para a comunidade. Era raro alguém visitar aquele espaço naquele horário. Mas a falta de pequenas coisas estranhas todos os dias acaba também se transformando em algo estranho. Então deitei na praia e não tenho certeza se dormi por alguns minutos. Isso mesmo, dormi. Acordei e voltei a caminhar, a vida já retomara seu ritmo normal, a noite havia se transformado em memória e os poucos sinais dela, desaparecido. O relógio de sol fazia suas marcações e as pessoas se aproximavam da praça central em busca de informação sobre o horário.
Troquei algumas palavras com um conhecido sobre como interpretar as informações vindas do céu e escritas em sombra sobre a areia. Aquilo me pareceu algo com pouco sentido. As informações se emendavam construindo uma frase contraditória.
O sol ganhava corpo e parecia um homem jovem, seguro de si. As areias estavam quentes, mas aquele calor era suportável, talvez até agradável. Comecei a me sentir entediado, nada para fazer, um cansaço sem origem que não permiti se transformasse novamente em sono. Escutei os ruídos, senti uma brisa que vinha do mar, mas ela não refrescava. O cheiro de comida chegou trazido pelo vento. Não tinha fome. Dois homens passaram por mim e me cumprimentaram. Perguntaram sobre a experiência do sono, e foi só então que me lembrei que fazia parte dela.
Voltei até o bosque das laranjeiras com uma leve desconfiança. Aproveitei para prestar bastante atenção nos pequenos detalhes, restos de vegetação deixados pelo mar sobre a areia, número de barcos ancorados, marcas no tronco de uma grande palmeira. Eles estavam todos lá, emprestando realidade àquela realidade em que vivia.
Assim que cheguei ao bosque ninguém mais dormia. A experiência já havia terminado há tempo. Percebi, pelas marcas no chão, o exato lugar onde dormira. Acompanhei o caminho descendente do sol e, envolvido por uma paz que não costuma me abraçar, senti novamente o peso de minhas pálpebras. Resisti, derramei água no rosto e consegui espantar o sono. Caminhei pelo laranjal. Foi quando reparei em algo estranho.
Todas as laranjas do bosque eram da cor verde. Desenvolvidas, maduras, do tamanho de laranjas prontas para serem colhidas, mas verdes. Arranquei uma do pé, abri e senti o gosto doce e o sumo avermelhado que dela escorria. Mas sua casca era verde, como se ela não tivesse amadurecido.
Foi quando acordei. O sol ainda não havia nascido e todos dormiam ao meu redor. Olhei para cima, e mesmo com pouca luz, percebi as laranjas todas com sua cor original. Tudo havia sido sonhado, mas me lembrava com clareza dos pequenos detalhes que fizera questão de memorizar. Conferi as pequenas imperfeições que havia memorizado, elas estavam todas lá. A posição dos barcos era a mesma daquela que vira em meu sonho. Tudo exato, a quantidade de nuvens do céu, as roupas com as quais estavam vestidas determinadas pessoas que prestei atenção, a única exceção eram as laranjas, que no sonho eram muito verdes e agora, depois de acordado, atravessavam da cor laranja para o avermelhado.
Quando encontrei meus companheiros de experimento, antes que pudesse contar qualquer coisa, eles me narraram como meu sono havia sido agitado. Segundo eles debati-me a noite inteira, falei em voz alta. Nada que pudesse ser entendido, mas pronunciava palavras misteriosas com bastante convicção. Acordei alguns deles interrompendo seus sonhos. Depois, pouco antes do nascer do sol, tudo se acalmou. Mergulhei em um sono profundo e silencioso. Dormi muito e de maneira tão tranquila que por volta das 10 horas da manhã precisaram se certificar de minha respiração.
Essa informação me causou estranheza, pois para mim aqueles tinham sido momentos de grande tranquilidade. Narrei-lhes tudo o que vira e a maneira como aquela realidade dos sonhos parecia-se com o que costumava enxergar no dia a dia. Contei-lhes sobre o único detalhe que se diferenciava do mundo com olhos abertos. A cor da laranja, algo insignificante, mas que parecia ser a marca que diferenciava as duas espécies de animais. Os ouvintes acharam tudo muito interessante, encheram-me de perguntas para as quais tinha poucas respostas. Sabia dizer o que havia vivido, que era quase igual ao que vivia normalmente, nada consegui dizer sobre a pequena, mas de certo modo, imensa diferença.
Alguns deles fizeram questão de colher algumas laranjas dos pés e examiná-las atentamente antes de comê-las. De qualquer forma, minha estranha noite de sono transformara-se em um marco exploratório. A experiência deveria continuar. Alguém teve a ideia de posicionar em cantos do vilarejo, objetos, cartas ou qualquer outra coisa que fosse desconhecida dos sonhadores, mas que poderia ser descoberto por eles apenas enquanto estivessem dormindo. Um dos participantes, que por enquanto deixaria de sonhar sob as laranjeiras, ficou encarregado de providenciar esses objetos e preservar seus segredos.
Ficou combinado também que, se novamente eu conseguisse essa liberdade que o sono havia me proporcionado, deveria realizar algumas tarefas previamente acertadas. Visitar determinadas pessoas, experimentar comidas e tentar escrever algo nas areias da praia. As duas últimas me pareciam tarefas impossíveis de serem realizadas, de qualquer forma aceitei o desafio.
O grupo ganhou entusiasmo com os resultados, mas adverti que sonhos como aqueles aconteciam pela primeira vez em minha vida, e talvez corresse o risco de nunca mais sonhar daquela forma. Não sabia se o lugar tivera qualquer influência sobre o resultado, ou então apenas o fato de estar predisposto, foi razão suficiente para que me libertasse do velho jeito de sonhar. Entretanto, como era de costume, a memória começou a ficar nublada e vários trechos do que havia sido sonhado começaram a ser esquecidos.
Não me lembrava principalmente se, durante o sonho, eu era completo senhor de meus desejos, a que ponto decidia minhas ações, ou até onde era conduzido e introduzido ao acaso em cenas que não tinham sido escolhidas por mim. Isso seria determinante em uma segunda fase de experimentos com objetivos mais definidos. Foi quando uma questão me deixou curioso, mais do que isso, ela dominou todos meus lados, me envolveu, e até certo ponto, transformou-se em mim: eu, do jeito que sou, com meus medos e dúvidas, com o desânimo e as alegrias, com minhas memórias e expectativas, continuaria existindo dentro daquele que, parecido comigo, utilizando-se de algo parecido com meu corpo, passeou pelos mesmos lugares que frequento, enxergou as mesmas pessoas com as quais costumo cruzar, e usou pelo menos parte de meu raciocínio durante um dia muito parecido com aqueles que conheço? Essa era uma questão, que para mim, destruía todas as outras, e sem querer, e sem que eu revelasse, me separava dos outros sonhadores, pois colocava interesses pessoais acima dos coletivos. Era claro que, no fundo, essas também se transformariam em posses coletivas, pois respondida essa questão, o grupo todo poderia avançar em seus desejos de descoberta. Mas eu já não pensava em pesquisa ou em outros, pensava apenas em mim e naquela possível outra pessoa, que durante algumas horas poderia se passar por mim, ou então existir ao mesmo tempo que eu, de outra, ou da mesma maneira, existia.
Questão complexa. No fundo, torço para que aquele tipo de sonho não se repita. Prefiro as histórias extraordinárias que encantam, e alguns minutos depois que o sono termina já não nos dizem mais nada. Penso que cometi um erro em narrar tudo o que vivi. Agora não me deixarão em paz se disser que não quero mais participar dos experimentos. De qualquer maneira não podem me obrigar a nada.
Daqui a dois dias terei novamente que dormir sob as laranjeiras, mas até lá não vou me preocupar com isso. Entretanto, preciso confessar a quem quer que seja a ordem e a categoria de meus medos. Fazendo isso talvez torne a dor de sentir medo, um pouco mais doce. Precisamos de alguém porque sempre desconfiamos de nós mesmos. E como não sou diferente e ninguém é, aqui vai: temo perder-me. Isso mesmo, derivar de um caminho conhecido, entrar em outro, apenas porque se parece imensamente com a trilha corriqueira e depois perceber que nada conheço, que estou sozinho e perdido. E então não conseguir voltar, esgotar todas minhas forças tentando descobrir os traços do cotidiano, esse mesmo cotidiano que antes de perder-me despertava imenso tédio. Lutar para poder voltar a sentir tédio.
Há ainda um risco maior, ou melhor, dois, o primeiro é encontrar-me dentro daquele lugar em que me perdi, descobrir prazer e, talvez, uma nova maneira de sentir tédio. Encontrar significados, ou pelo menos julgar os encontrar, sentir prazeres, criar hábitos e segredos. Fazer tudo isso, abandonando do lado de cá o corpo responsável por alimentar os sonhos. Esse é um grande perigo, mas há outro que para mim parece pior. Vender-se a dois senhores, morar em ambos os mundos e em nenhum. Desfrutar da perdição, contentar-me com os longos caminhos sem fim que apenas conduzem a outras estradas que se emendam com as primeiras. Flutuar, sem peso ou origem, sem temer quedas ou paredes, para sempre. É isso que mais temo.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
