
Quando era criança disfarçava-me amiúde: de cowboy, índio, escuteiro e por aí a fora. A realidade era demasiado apertada para mim. Tudo isto acontecia dentro de casa ou nas escadas do prédio onde brincava com os meus pequenos vizinhos.
Depois fui crescendo e de três em três meses mudava de rua onde brincava. Naquele tempo, uma rua significava um microcosmos diferente. Sair de uma para outra, significava uma viagem para um lugar remoto: novas caras, novos hábitos, atividades e perspetivas diferentes dos nossos pequenos mundos infanto-juvenis.
Fiz dezenas de desportos, dediquei-me superficial, mas entusiasticamente, a muitos hobbies. Fiz teatro que era a forma mais profunda de sermos outra coisa que afinal somos. Ou então escrevê-lo (o teatro) que implica multiplicar o número de consciências que podemos habitar.
O curioso é que do ponto vista existencial prendo-me perene às coisas reais: vivo há 56 anos na mesma zona, sou casado há 32, trabalhei 30 anos na mesma empresa.
Talvez porque com a idade passei a ser mais reflexivo, apercebo-me agora que sempre tive este jeito de viajar estático, este dinamismo controlado, esta ansiedade ou talvez apenas este gosto em petiscar.
Quando ouço a “Tabacaria” do Álvaro de Campos, desce-me um sorriso discreto aos lábios. É um sentimento complexo, uma angústia bonita, a sublimação da derrota talvez.
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”.
Acho que nunca ninguém descreveu melhor esta impotência em ser outra coisa, esta limitação física, espaço-temporal que apenas o “faz-de-conta” consegue ultrapassar.
Amadora, 18 de julho de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.
Uma resposta
Sua bela crônica me fez lembrar dos hiperfocos dos quais vivo.