
Créditos: A Clarividência, René Magritte (1936)
A custo, presenciamos exaustivamente a literatura em sua utilidade pública a negar uma arte livre de pertencimentos, empoderamentos e outras pretensões, vaidades. E eis que o fascínio batismal extravia, nega a criação, o ser artista.
É primariamente lamentável estar refém e a serviço de posicionamentos essencialmente esgotáveis, tendenciosos, provisórios. Há uma violenta e covarde generalização de “escritores” (as aspas sinalizam não necessariamente a qualidade de suas obras, mas suas abordagens em si e em dado momento) fazendo uso de sua assinatura para convencer, patrocinar, disseminar paixões políticas ou qualquer outra deliberação invasivamente particular, doutrinária. De resto, pululam nas mídias digitais “bancadas intelectuais” – quando aprender a metaforizar é fazer o dever de casa sem a liberdade criadora em que andam juntos o subjetivo e o ecumênico.
Todos temos inclinações e preferências ao reflexo de nossos meios de adaptação, mas que o ficcionista não o faça na forma de escravização, de favoritismo, empréstimo de sua própria ” arte”. Reparemos: a poesia de imediatez social de Carlos Drummond de Andrade e de Ferreira Gullar, por exemplo, sugere, em tom de denúncia, a atenção para motes da época, mas – mesmo quando há o convite à ação – não conferimos o anseio da conversão. Outros dois pontuais exemplos estão em João Cabral de Melo Neto e em José Saramago ambos ateus. O primeiro, ao contrário do segundo, não assumidamente comunista; de um modo ou de outro, como lhes foram indiferente a protagonização de si mesmos: o acesso universal em que cada leitor se define. Suas obras não se fizeram privativas, contaminadas na forma de militância com seu Eclesiastes inteligente, utilitário. Seus leitores não precisaram ser do partido comunista nem ateus para apreciarem essas pérolas da literatura séria.
Nessa falta de compromisso, há uma má fé à autoajuda, talvez uma preguiça do autor consigo mesmo e, o que é ainda pior, com seus leitores que devem esperar inventividades fluídicas, e não dogmas, aliciamento, demarcação territorial. Podemos comparar aos bairrismos de que estiveram longe os clássicos Machado de Assis e Lima Barreto nas suas crônicas sobre a sociedade carioca do século XIX e XX, respectivamente, tão carismáticas a leitores de qualquer época e parte do mundo.
E mesmo que a obra fique à parte, as guerras de narrativas, a voluntária campanha ideológica põem o autor ao lugar comum. Nessa linha, o engajamento político, à revelia, o promove a um espaço de covarde disputa e segregacionismo. Noutra faixa, os raros autores sensíveis ao ininteligível chamado da escrita.
O artista que não resguarda sua arte de vaidades e egoísmos em declarações partidárias, de sentenças autobiográficas não traz consigo sua alma, não é, no sentido lato do termo, ético, mas um aproveitador porque quase sempre não o faz por ingenuidade, o que seria um tanto perdoável.

G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021), Gestos do nada (Litteralux, 2026) e O direito à imagem (no prelo).