Coluna Guido Viaro: Dom

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Os sapatos de couro com saltos de madeira estalam no peti-pavê. Vapores de uma chuva esquecida erguem-se das pedras brancas e quentes, e se misturam com as sobras dos sons de um saxofone e os cheiros de pipoca e óleo diesel. O ritmo pulsante de saltos altos ignora outras sensações, atravessa o espaço vago entre duas buzinadas e desaparece atrás do grande luminoso, que alheio à quantidade de luzes, persiste: “O paraíso dos bebês”.                                                                                   

O vendedor de bilhetes oferece suas combinações numéricas para olhos que só tem olhos para uma tatuagem, que passeia seus olhos pelas cores e promessas de uma banca de revistas: “A guitarra de Jimi Hendrix”, “Construa seu destino”. Três moedas e um doce de coco, ele joga o plástico no chão e mistura as fibras brancas da fruta com os fios grisalhos do bigode. As nuvens perdem a paciência, só quem percebe é aquele que as encontra dentro de um caneco de chop. Atrás dele está “O rei das conexões”, duzentas pequenas gavetas de metal escovado, de onde mãos entediadas retiram encaixes e roscas, enfiam-nas em sacolas plásticas brancas e depois transformam-se em olhos, que vivem para espiar o grande relógio de parede.
                                                                                                 
“Estou com pressa”, desvia de dois “Boa tarde, tem um minutinho”, o minuto foi gasto esperando abrir o sinal para pedestres e assistindo a um gari tentando espetar um plástico transparente que o vento fazia dançar. Seu uniforme alaranjado confunde-se com a grande placa da mesma cor “J. Jaurès advocacia trabalhista”, posicionada um metro acima de sua cabeça. O mendigo sem pernas enxerga placa e gari como uma coisa só, o homem sai de dentro da placa mas lhe pertence, e um dia a ela retornará.
                                                                                                                            
A moeda de vinte e cinco centavos cai dentro de seu chapeu rastafári, o mendigo irritado segue com os olhos os três suspeitos da doação, dois deles desaparecem num oceano de costas e bundas, o terceiro, terno escuro, pasta de couro, entra em uma galeria comercial, parado em frente à portaria entre as centenas de placas metalizadas “parecidas com o memorial de um crematório” “Conjunto 1101- Alfaiataria Epicuro”  “Conjunto 806- AIC – Associação dos inadimplentes convictos” “Conjunto 1212- Colegiado acadêmico para reflexão de princípios”. O homem elegante espera a pequena multidão de doze pessoas descer do elevador e é sorvido pelo prédio. A maioria dos que saíram estão apressados e desaparecem em uma das duas bocas da galeria. O jovem passeia os olhos por vitrines, pessoas, mas parece estar mais interessado em detalhes, a pintura do teto, imitando céu azul, a fisionomia cimentada dos porteiros “a Disneylândia dos pesadelos”, troca olhares, espia distraídos, escritórios de contabilidade, joalherias baratas, em uma lan house vê alguém escrevendo um e-mail, curioso sobre o destinatário, no final da galeria enxerga um homem assistindo televisão no quinto andar de um prédio antigo “A paisagem a óleo pendurada na parede, vinte livros em uma prateleira plástica, a luminária que já foi moderna, o chão de tacos de madeira”. Outros, tantos, todos parecendo esperar, degustando os sabores do dia, olhos que buscam os menores preços, ouvidos de cego, atentos às estranhezas, desconfiados de que tudo não passe de uma longa noite, confirmando com a bengala a realidade do concreto para depois mergulhar no oceano escuro, perdendo todas as perspectivas espaciais, amarrando-se ao outro somente pela memória, até que a corda que une as extremidades começa a enfraquecer, arrebenta suas fibras e depois inunda pulmões com o líquido salgado do esquecimento.  
                                                                                                                             
“Tenho orgulho de meu corpo, os chiados masculinos, pescoços torcidos, as gentilezas excessivas, o desdém feminino, tudo confirma meus dias de glória. A beleza fica mais saliente todas as manhãs, quando empurro pela praça a cadeira de rodas de dona Olga, noventa e um anos, a morte estampada no rosto, nessas horas sou o antídoto contra o tempo, a promessa de que o outro sobreviverá em mim.”  
                                                              
Os detalhes flutuam esquecidos no rio citadino, a guimba de cigarro ainda viva, o baile das cortinas de um apartamento cinzento, o pequeno arco-írisque brota de um galão de água nas costas do entregador. Olhares com todos os pesos pesam sobre corpos que, quando o tempo os torna leves são passarinhos mergulhados na luz, quando os faz pesados, transforma-os em velhos elefantes caminhando por um lamaçal rodeado por leões famintos.                                                                                                               

“Eu, olho para um homem que lava as vidraças de um arranha-céu espelhado, vejo o pequeno reflexo de seu rosto sem conseguir distinguir emoções, imediatamente uma linha invisível une-me a ele, que é como um desenho amarelado escondido atrás de uma vitrine nublada durante uma visita escolar a um museu, ocorrida há quarenta anos atrás. Amo-o, Odeio-o. Sou ele. O infinito despeja sobre mim todas as emoções que não vi em seu rosto. Do outro lado da rua uma mulher me olha, percebo o que aconteceu, a linha invisível, ela também sou eu, e todas as coisas, todos os tempos, crianças, árvores, cachorros, velhos, todos unidos pelo mesmo raio, que faz com que cada pessoa, objeto, planta ou animal sejam também tudo o que ela não é.   
                                                                                 
Ontem estava nervoso, falta de dinheiro, dores de cabeça. Hoje, depois da revelação, estou calmo como um condenado à prisão perpétua, caminho dentro do grande útero e converso com meus muitos irmãos. Especial curiosidade por aqueles cujos nascimentos ocorreram há duzentos anos, e também para os que só irão funcionar plenamente como homens em cerca de um século e meio.”   
                                                                                          
No cruzamento o carro amarelo avança o sinal vermelho, o carro vermelho buzina, ódio instantâneo, os vidros escuros evitam que os veículos se transformem em pessoas, eles seguem lado a lado, orgulhosos de si como dois pavões gordos fazendo a corte, até que um deles, o vermelho, acelera, atravessa o sinal amarelo e desaparece do campo de visão do homem que assistiu à toda a cena sentado em um banco de praça.
                                                                                                                                
Ele não parece ter muito a fazer, braços espalhados pelo encosto do banco, olha para o chão e para o céu, mantém distância das pessoas, murmura palavras incompreensíveis, impaciente, retira do bolso um bloco de papel e uma caneta: “Todos eles, andando, indo a lugares onde deverão realizar tarefas, remuneradas, quase todos cumprindo missões inconscientes. Minha dúvida é: Quando tiverem de ser substituídos, encontraremos pessoas que cumpram exatamente suas missões? A minha maior preocupação é com aqueles que não são muito úteis para a sociedade, será que serão substituídos decentemente? Como encontrar os mesmos olhos sem brilho, que durante uma tarde ensolarada espalham tédio pelas ruas? Como substituir a moça que sonha com o homem que vai fazê-la feliz? De onde as próximas gerações farão brotar tantas e tão amargas lágrimas?”  
                                                                                                                
Olhos vidrados. Cabeça abandonada. O fantoche vivo espalha trapos e cheiros pelo chão cinzento. A garoa desenha seus contornos. O coração de uma criança percebe a cena. O velho japonês vê o menino: pedra solitária de um jardim zen.   
                                                                                                       
A mulher jovem caminha ao lado de um ponto de táxi, usa fones de ouvidos, não percebe que a mesma música sai de dentro dos onze carros estacionados. “Gente feia, gorda, japona de napa com calça legging, o motorista, vermelho-cachaça, é um infarto pronto para acontecer.”                        

O paletó disfarça a barriga. Ele vira a cabeça e encontra curvas. Compara sua mulher com a que acabou de passar. Onde errou? Abraça os processos que carrega e segue a passos nervosos para o tribunal de pequenas causas.
                                                                                                                       
O menino repara na estranha luz, que vinda do céu, reflete-se no sapato preto de um homem distraído e se espalha pela mesa vermelha da confeitaria. O mundo parece estar sonolento, e como acontece com os que estão prestes a dormir, nada percebe. A lâmpada do abajur foi coberta por um lenço translúcido que evita a plenitude da noite e afasta fantasmas, mas os olhos da criança não se fecharam e assistem a uma cidade cheia da inocência dos adormecidos. Os alaranjados envolvem as torres de concreto, os carros dançam em ritmo diferenciado, as grossas massas de nuvens são portas de banco programadas para fechar, a luz agora se esconde embaixo de cadeira do menino, ele abaixa-se para observá-la “É a mesma luz das estrelas, agora presa embaixo de minha cadeira.”   
                                                                                                                                    
Enquanto serve uma mesa, o garçom percebe a criança abstraída com os restos de sol derramados pelo chão. Espalha o molho pelo filé, vive, através do menino, sua infância, o mistério encoberto pelas mesas, as conversas abafadas dos adultos, a bola de luz que manchava azulejos da cozinha. Os clientes estranham os olhos vidrados do garçom, ele é aquele menino e também um outro que vive sufocado pelas mantas do tempo e enrolado em casacos sociais. Ele vai até o menino, oferece-lhe uma bala, os olhares trocados desenrolam a criança adormecida, o menino sorri, não custou a reconhecer, está na presença de outra criança. O menino de corpo pequeno mostra como a luz do sol se movimenta pelo chão da confeitaria, o outro fala-lhe de cores, de todos os amarelos do sol somente alguns tem valor, são os meio-tons, quando a tonalidade de ouro parece envelhecida, é nesse ponto que descobrimos dentro da cor um riacho de água intuitiva em cujos reflexos enxergamos parte do que se esconde atrás de nossos rostos.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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