
Ilustração feita por IA sob prompt do autor
Quem já experimentou uma lembrança trazida por um perfume, por uma paisagem, por uma música ou pelo sabor de uma comida? Quando eu era menino, e morava em São Luís do Maranhão, minha família costumava passar finais de semana em uma fazenda no povoado Maracanã, que pertencia à família de Miguel e Zélia Fiquene. Não havia luz elétrica. Tudo era rústico: fogão a lenha, bilheira, lamparinas e lampiões a querosene.
Quando iniciava o crepúsculo, era hora de acender as chamas da casa-grande. Na cozinha, uma ou duas lamparinas iluminavam o fogão. Lembro que, em uma de suas bocas de barro, havia uma panela muito grande, que cozinhava arroz sobre o crepitar da madeira. O cheiro da fumaça do arroz se misturava ao do querosene da lamparina e se espalhava agradável pelo ambiente, deixando no ar um cheiro de infância que jamais esqueci.
Anos depois, já adulto, eu andava a pé por uma das ruas do bairro Aldeota, em Fortaleza, quando senti aquele mesmo cheiro de minha infância, vindo de uma das casas. Havia um batente. Sentei-me e fiquei a sentir aquela fragrância gostosa do passado. Imagens adormecidas despertaram, para dar vida a uma época de inocência. Por isso, eu escrevo, para preservar o que outrora existiu e que hoje se esvai pelos subterfúgios de uma mente concorrida. Reconheço que não somos um povo de boa memória. Nossas histórias passam, e as lembranças surgem apenas quando são motivadas por um dos nossos sentidos. Quando despertarmos, poderá ser tarde demais.

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).