Coluna Guido Viaro: 8 poemas

Ilustração: Barbara Mierau-Klein


Ser humano é só uma das maneiras de existir.
Há muitos grãos de areia nessa praia sem bordas.
Cada qual convencido de que o sol nasceu para criar suas manhãs,
E de que o que resta aos outros é a noite sem estrelas.
 
***
 
Sob o ritmo suave das folhas da palmeira.
Os gritos insensatos do viciado.
A primavera molha de luz suas flores,
Mas também as arranca com a força da tempestade.
 
***
 
A manhã rasteja pelo chão,
Abrindo celas e libertando cores,
Que saltam sobre pétalas,
Como aquele que mergulha dentro da vida.
 
***
 
O jovem escala a montanha da esperança.
No topo contempla o caminho percorrido
E a vista que se perde no horizonte.
Experimenta o calor sobre a pele e as gotas de suor descendo pela fronte.
Então percebe nuvens cobrindo o sol
E as sombras que diminuem todas as cores.
Tem dificuldades para se levantar,
A descida parece mais perigosa e menos bela.
A garoa se mistura a seu suor,
E seus passos quase desprovidos de vontades
Avançam na direção da planície.
 
***
 
As águas do rio são o ar que respiro.
Ao redor outros peixes,
Que não imaginam existir nada além da lâmina d’água,
E que são arrastados por uma correnteza que faz as coisas acontecerem,
E tudo o que existe terminar.   
 
***
 
O que faremos com a eternidade que perseguimos?
Que sentido emprestaremos à longa linha de dias enfileirados?
Encontraremos portas abertas e o vento soprando luzes,
Aspiraremos felicidades grávidas de dúvidas.
Depois haverá as noites bem dormidas e os penhascos da alma.
Mas nada será suficiente, o tempo pedirá sempre mais.
E o poço do mundo jamais será enchido com as pedras do cotidiano. 
 
***
 
A ideia é cor.
Mistura de fragrâncias que atravessa dimensões.
Luz carregando mundos,
Correntezas que desaguam em outros leitos,
E vibram como o sol dentro da gota de orvalho.    
 
***
 
A vida não precisa de olhos,
Floresce na pausa daquilo que não é.
Sente a si mesma para então azular fronteiras,
Garoando sobre artérias e mistérios,
Afundando em alturas sem dimensão,
E germinando dentro do que não existe.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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