
Metamorfose de narciso, Salvador Dali
Gado Desgraçado
Colha dos seixos
Dorme gado desgraçado!
O teu sono magistral
Pois no nascer do dia acordarás
Cada vez mais cansado
Da dura rotina do teu curral.
Dorme gado alienado!
A tua indiferença ancestral
Sonha o teu fetiche ilusório
No mercado do teu próprio velório
Sendo engrenagem, um fantoche ideal.
Enforca-te gado ambicioso!
Nas cordas infames de teu salário reduzido
Afoga-te no teu plano imaginário
Como o cão que anseia em desespero o osso cuspido.
Morre gado expropriado!
No covil de cobras do mundo capital
Que te compra e arranca as entranhas nas manhãs
De um abatedouro mórbido tingido de sangue animal.
Que decepa os teus desejos em feias artimanhas
Os teus senhores que patrocinam a tua rotina servil
Que se refrescam em sorrisos doentios das tuas dores vãs
Algozes que te prendem num ciclo vicioso, de ideologia inútil.
Através do texto de clausulas insanas de aspecto e natureza selvagem
Que suga, esfacela, atrofia, amolece, prosta, entristece a tua coragem.
Vendida pelo pacto decadente, fajuto, de violência e escravidão ‘‘sutil’’.
Expando e medo
Não sou carismático
Não sou bonito
Feito o plástico
Que enfeita o teu rosto
Sou enigmático e louco
Feito o hábito
Esquisito do teu gosto
Minha voz tão diferente
Que desagrada a tanta gente
Veja!O problema está na frente
Das janelas circulares da mente
Míopes, estáticas, fanáticas.
Enfeitadas por horríveis certezas
“Joias” legítimas e paradigmáticas
Violentadas por múltiplas etiquetas
Sou feito o tempo
Que apaga e concerta
A ignorância do teu pensamento
Que insiste em desprezar-me
A cada novo momento
Em toda novidade há
Olhares esquisitos desde cedo
A pior das enfermidades
Esse tal de maldito medo
Sistema rotina
A grande personagem deste poema é Marina
Mais uma típica filha e produto da feia rotina
Que destrói, desintegra, dilacera e desanima
O sorriso suave e sereno desta doce menina.
É pura boneca de uma criança egoísta e traquina
Malvada, manipuladora, medíocre e mesquinha.
Cujos fantoches, esta, prazerosamente domina.
Como num show de marionetes que jamais termina.
Talvez, seja por esta razão, minha doce Marina.
O motivo de consumires a roupa dita “grã-fina”
Que tu compraste, louca e cegamente, em Teresina.
Que apenas fantasia de lixo o teu corpo, pequenina.
E que gasta inútil e injustamente a tua retina.
Esta, já cansada de receber uma luz que nem sequer ilumina.
Mas que ofusca os teus lindos olhos verdes de felina
Que aos homens, também seduz, afeta e fascina.
Embriaga, engana, enfurece, envelhece e afina.
A flauta da ilusão da mente, já corrompida, masculina.
É como um vírus que desajusta e enfraquece a hemoglobina
Que desequilibra a força da hemácia afetando a melanina
Mostrando a palidez morta da pele dos homens, e de Marina.
Tudo isso por causa da podre precisão desse sistema chamado rotina.

Francisco José Vieira Paiva é natural de Altos-Pi. É músico, compositor, poeta e artista plástico. Tem formação em História pela UESPI de Campo Maior-PI. É autor dos livros Artesania e A contracultura em Teresina e as Peraltices artístico-experimentais de Arnaldo Albuquerque na Chapada do Corisco na década de 1970. É membro da Academia de Letras de Línguas Nativas de Altos (ALLNA)