
O jovem deitou-se com o céu sobre sua cabeça. As ideias brigavam por uma hegemonia, que seu rosto informava a quem o visse, que não concederia a nenhuma delas. Nada de conclusões. A luz prateada do luar espalhava-se por seus olhos, que além desse brilho acumulava outro. De repente algo se moveu. A noite desapareceu, pois uma luz interna iluminou seu redor. As estrelas e a lua continuavam em seus lugares, mas ele movia-se como se o dia fosse claro. Inquieto, atravessava o alto do penhasco de um lado para outro. Esfregava os pés na camada de areia que cobria as pedras. Então se abaixou e apanhou um graveto seco.
Enquanto se encaminhava para riscar com suas ideias a areia, seu impulso foi dissuadido por uma força maior. Outra ideia que pedia passagem. Deixou o graveto cair no chão, que a essa altura tinha camadas prateadas emprestadas pelo luar. As palavras eram uma ferramenta que utilizaria para expressar ideias, mas, ao mesmo tempo, elas constituíam uma ideia em si. A maneira como se espalha palavras, sua ordem, as escolhas entre elas, tudo isso modifica o que será dito.
As estrelas se moveram no céu, mas o jovem permanecia imerso em seus raciocínios. As palavras eram um instrumento mágico e dúbio, mas havia algo que estava acima delas. Talvez os homens fossem palavras, enquanto as estrelas, elas eram números. Não havia homens sem estrelas ou palavras sem números. Eles estavam presentes em todas elas e talvez existisse uma equivalência entre determinada palavra e algum número. Mas não eram apenas elas as subordinadas a essa entidade universal. Todo o resto poderia ser representado por números. Essa talvez fosse a grande gramática do universo. Eles estavam no pernilongo que, enquanto flutua sobre a fina película que se forma na água, esfrega as patas, na alternância entre dia e noite, comandavam as marés, a circulação de sangue, as chuvas. Devia haver uma lógica numérica na disposição das estrelas, no crescimento das crianças e no nascimento de uma pequena sociedade.
A noite perdeu juventude e os primeiros ruídos da manhã puderam ser ouvidos. Ele permaneceu impávido, esquecido do mundo, mergulhando mais fundo. Os números comandavam também o mundo dos sonhos. Eram os responsáveis por dividir a realidade em duas e nos fazer acreditar que determinado lado é real e o outro, ficção. Mas também, um número menor, ou oculto, um número raro, poderia fazer com que acreditemos no contrário, que não há realidade e ambos os lados são, ao mesmo tempo, verdade e mentira.
Então assim que o primeiro raio manchou de dourado as areias que passaram a noite sendo prateadas, de seus olhos surgiram dois pequenos vulcões que cuspiam cores quentes. Ele abriu um sorriso e seus dentes brancos, sem que percebesse, foram pintados por aquela cor de ouro que vinha do céu. E se alguém descobrisse a chave que abre a porta do mundo dos números, se conseguisse decifrá-los, prevê-los, entender a lógica que há por trás?
Seu sorriso era daqueles de quem descobre um novo mundo. O dia esparramou-se por todos os cantos e os ruídos que acompanham seu nascimento, começaram a serem ouvidos. A noite insone parecia não influenciar seu comportamento. O jovem exalava energias que pareciam apenas iniciar suas demonstrações de força. Desceu dos rochedos murmurando sons que talvez nem correspondessem a palavras. Caminhou na direção da praia, entrou no mar de roupa, deixou com que as águas chegassem até seu pescoço. Olhava para o alto, uma fera pronta para devorar todas as presas do mundo.
Sentado na areia, sentia o peso do universo sobre seus ombros, mas ele não parecia grande diante do acumulado de forças que seu corpo representava. Havia os números, os sonhos, e muitas outras coisas que pediam para vir à superfície. Deitou-se na areia e respirou fundo. A última coisa que desejava naquele instante seria adormecer. O mundo dos sonhos poderia esperar. Havia muitas decisões importantes para serem tomadas na vigília. Não sabia por onde começar, mas decidiu que deveria iniciar a resolução do problema pela mais simples das questões. O que faria de sua vida? Continuaria na aldeia, tentaria embrenhar-se na mata para descobrir um novo mundo? Se fizesse isso, iria sozinho ou acompanhado pela jovem?
Antes de responder, percebeu que todas as possibilidades de exploração anteriormente consideradas levavam em conta uma inserção na mata ou uma aventura pelos mares. Mas conforme seus olhos passeavam pela praia descobriu uma terceira alternativa. A própria praia. Aquelas areias em que sua vista se perdia, terminariam em algo diferente. Além do que, caminhar por elas era muito mais agradável e seguro do que embrenhar-se na mata ou desafiar o oceano. Sem ainda se decidir se partia ou não, decidiu que, caso partisse, utilizaria as areias.
Quanto à companhia, nada decidiu. Em seguida as questões maiores escaparam ao seu controle e atropelaram as de menor relevância. Se o mundo dos sonhos se afigurava um universo sem fim, caso descobrisse a chave que abre a porta dos números, acabaria se tornando o senhor do mundo da vigília. Poderia então dominar ambos, a realidade inteira com tudo o que estava contido dentro dela, todas as ideias, as estrelas e por que não também, o tempo. Tudo isso, de certa forma, não tão longe do alcance de seus braços.
Sentiu como se um rio caudaloso invadisse seus pulmões e espalhasse seu conteúdo viscoso pelo resto de seu corpo. Essa substância chamava-se vaidade. Identificou o perigo e o principal agente desses riscos: ele mesmo. Decidiu que precisava diminuir o ritmo para conseguir assimilar as vivências da última noite. Já não confiava inteiramente em si mesmo. Caminhou até o centro da aldeia torcendo para não encontrar ninguém. Ainda era muito cedo e a praça central estava vazia. Contemplou o relógio de sol, que seguia obediente, executando sua missão.
Foi atraído pelo lento caminhar da luz. Imediatamente identificou que ali morava outro grande mistério, tão grande quanto os números e o mundo dos sonhos. Mergulhou naquelas águas em busca de alguma resposta. Enfiou as canelas na água e preveniu-se, não queria ir até o fundo, afinal, viver não é responder grandes questões, é vivê-las sem perceber que elas acontecem ao redor. Mas a curiosidade juvenil permitiu que avançasse alguns passos na direção das profundezas.
O tempo era a matéria-prima da vida, mas ao mesmo tempo que a criava, a destruía. Se olharmos mais de longe, de fato, ele nada destrói, apenas transforma. Não apenas a vida, mas tudo o que existe ao seu redor. Essa era uma constatação primária, permitiu-se um avanço. Mas qual era a essência daquela estranha matéria sem cor ou peso? Do que seria feita? E quais as ações dela sobre sua própria existência? Estaria o tempo imune a ele mesmo? Provavelmente não. O que nos leva a constatação de que um dia, como todo o resto, ele deixará de existir. E como seria esse universo sem tempo? Provavelmente não possuiria movimento e qualquer objeto. Um imenso nada condenado a ser nada para sempre.
Percebam a sutileza dessa matéria etérea. Se um universo sem tempo está condenado a ser um nada por todo o sempre, ele, o tempo, apenas fingiu que foi embora e se escondeu entre os átomos, as subpartículas, ou seja lá o que forme esse imenso nada. Talvez, enquanto existir algo exista tempo, e esse nada imaginário, não deixa de ser algo. Mas ainda estamos examinando consequências sem atacarmos a definição profunda.
Ele existe para existirmos e porque existimos, ambos ao mesmo tempo. Continuo falando de consequências. Vamos lá, só um pouquinho mais fundo. O tempo é a única ação, pessoa, animal ou objeto, cuja consequência é idêntica à ação que gerou sua existência. Essa coincidência não existe em nenhum outro ente. O tempo é ao mesmo tempo, sua (dele) própria morte e nascimento. Acontece independente da existência de anteparos que possa reduzir a nada. Mas sua mais evidente demonstração é a destruição. Ele é paradoxal, pois possui um imenso instinto de sobrevivência que só não é menor do que seus desejos suicidas.
Ele prosseguiu, o relógio movia sombras e o dia avançou. Algumas pessoas perceberam sua presença e ele teve de guardar na memória a imagem do relógio de sol, e arrastou seus raciocínios sobre o tempo para debaixo do bosque das laranjeiras, que a essa altura do dia estava vazio. Consequências, movimentos, desejos, até agora havia examinado esses aspectos do tempo, mas ainda estava longe de descobrir o que era.
Uma laranja pendia do galho, estava em seu ponto maior de maturação, e se não fosse arrancada do galho e comida, cairia no chão e apodreceria. Talvez esse fosse um recado que o tempo estivesse gritando. Essa coisa estranha não existia para ser compreendida, apenas sentida como uma brisa matutina. Olhou para o galho, que parecia entortar-se com o peso do fruto e cujo movimento sinalizava uma entrega. Eram braços indicando a direção na qual a natureza deveria prosseguir. Da mesma forma, a missão do fruto era cair no chão e espalhar suas sementes. Se assim fizesse, estaria cumprindo seu destino (a palavra é péssima, mas nesse caso, ajuda na compreensão).
Quem era a corda que amarrava o galho, o fruto e a semeadura, que eventualmente poderia ocorrer? Sim, ela chamava-se tempo. Era uma força estranha, que possui diversas qualidades inusitadas e contrastantes, que geram paradoxos difíceis de serem compreendidos, mas que além de amarrar o galho ao fruto, unem também tudo o que existe no universo. Mas a capacidade de união é uma característica, uma consequência gerada, e não um retrato fiel daquilo que, em vão, estamos tentando definir.
Continuemos, pois nossa tarefa é árdua. O tempo nasce dentro de si mesmo. Ele é o útero, a mãe e a criança. É também o médico que fez o parto e o hospital ou a casa onde a criança veio ao mundo. Ele é a afirmação e sua respectiva negação. São todas as sombras do universo. Mas ele não é apenas uma infinita soma de todas as grandezas que existem. Ele brota como um sol que espalha sua imagem por muitas poças d’água. Está em todo lugar e (aqui um paradoxo), em todos os tempos.
Há quem diga que é irmão gêmeo do espaço, pois ambos nasceram juntos, mas as coisas não são assim tão simples. Assim como a imagem do sol ou da lua pode se espalhar por lagos, mares e poças d’água, o sentido e a existência do tempo podem fazer o mesmo. Então aquele específico nascimento a que muitos se referem, onde tempo e espaço surgiram de mãos dadas, e desde então se espalham pelo universo como sombras mútuas, foi apenas um minúsculo acúmulo de duas ou três gotas d’água, sobre cuja superfície se espelham as imagens das duas magníficas entidades entrelaçando dedos e almas.
Mas aquelas poucas gotas, apesar de refletirem uma imagem que a muitos parece verdadeira, são apenas mais um reflexo no interminável labirinto de espelhos que compõem a realidade. Portanto, tempo e espaço não são gêmeos siameses, costumam andar próximos, mas ambos podem existir separadamente. É claro que o tipo de realidade que existirá em caso de separação é radicalmente diferente daquela que conhecemos.
Então, esse ente, que de nada depende, que pode assumir muitas formas, e que se origina de si mesmo, estaria sujeito ao envelhecimento e a um fim? A resposta é complicada, mas também é simples. Vamos à parte simples: sim e não, sim ou não. Agora é hora de encarar a complexidade: ele pode sim acabar, mas continuará, ao mesmo tempo, existindo.
Mas não é só isso, esse é apenas o começo. O tempo está por toda parte, vive dentro de uma colméia de abelhas, na superfície solitária de um cometa e na concepção de vida de todos os homens e mulheres. Ele é como a água e seus três estados, é líquido quando flui com a naturalidade e o ritmo de um riacho que invade a noite com seus murmúrios quase silenciosos. É sólido quando o soldado entrincheirado espera pelo ataque do inimigo, e é vapor quando transcorre dentro do mundo dos sonhos. Assim como a água, o tempo também pode ser represado, e o acumulo de muito tempo pode também ter efeitos devastadores sobre o homem.
Mas ele difere da água quando flui em muitas direções e simultaneamente assume estados diversos. A lógica que costumamos utilizar para compreendermos a vida e nos guiarmos dentro do que ela nos apresenta, quando aplicada ao tempo, se assemelha à luz emanada por uma brasa de fogueira extinta, em comparação com aquela emanada pelo sol. O sol constrói consequências e comanda a vida sobre o planeta, e assim o faz o tempo. Se ele é aquele ente que a tudo destrói, e em última instância, é o algoz que podemos conhecer antes que nossas cabeças sejam cortadas, ao mesmo tempo, a vida não existiria sem ele. As ideias também não. Elas existem porque o homem confronta-se com algo, tentando emprestar um sentido ao fato de estar consciente, mas não conseguir entender se essa constatação possui ou não algum sentido.
Ao mesmo tempo em que levanta paredes, ele, o tempo, as destrói. Todo esforço passa a ser vão, um ato anula o outro. O que sobra é o resultado da soma do desejo com a desolação. Para olhos mais treinados a não se fiar em imagens, o que sobra é o movimento. Ele em seu estado puro, não a resultante de determinadas forças ou a consequência de algo. Nem ao menos a origem de tudo, apenas o movimento puro, ou seja, aquilo que faz com que sejamos diferentes do nada. Aqui uma primeira, mas ainda frágil conclusão: o tempo existe quando algo, além dele mesmo, também existe.
Essa conclusão não elimina a possibilidade da existência de um tempo anterior a esse período. Ele pode até mesmo ter sido o agente precipitador da existência de todas as coisas. Talvez tenha nascido como um redemoinho, que perturbou a paz eterna que reinava dentro do coração do nada. Um movimento de rebeldia que, assim que destruiu a unanimidade, e foi semente do universo, tornou-se o encarregado de certificar-se que o que acabava de nascer também precisava conhecer a morte. Caso contrário, o próprio movimento desapareceria, pois o universo caminharia em apenas um sentido. E um universo como esse, voltaria a ser nada.
Mas não temos garantias de que o nosso, também, em algum tempo, não volte ao nada. Estamos seguros enquanto houver movimento. E é por isso que, e agora apenas as pessoas com olhos universais compreenderão essa afirmação, que a ação do tempo sobre nossos corpos, de nossos seres amados, de nossas maiores glórias, de nossas civilizações, ao contrário do que parece, é sob um ponto de vista mais vasto, ou universal, extremamente benéfica. Somos partes infinitesimais do grande todo, e nossas vidas são representações minúsculas de tudo o que existe, portanto, se quisermos continuar vivendo, mesmo que nossas formas se modifiquem e nossas consciências se transformem, precisamos permitir que o movimento continue acontecendo.
As pálpebras do jovem começaram a pesar e ele temeu um mergulho forçado no mundo dos sonhos. Precisava de mais tempo para decidir o que era o tempo. Levantou-se, molhou o rosto e caminhou. Depois desviou olhares e rostos conhecidos, precisava de paz. É de dentro dela que nascem as descobertas, as conversas servem apenas para confirmarem aquilo que ambas as partes já sabem. Escondeu-se atrás de um grupo de arbustos que quase ninguém visitava. O dia começava a assumir sua identidade. Era hora de seus pensamentos assumirem a sua e, se não conseguissem encontrar a pérola que procuravam, pelo menos mergulharem o mais fundo que seus pulmões aguentassem.
Movimento e tempo pareciam o objeto e sua respectiva sombra. Mas nesse caso tudo era mutável e a condição de objeto poderia instantaneamente ser transformada em sombra, e vice-versa. Além disso, as duas coisas poderiam ocorrer simultaneamente. Sim, era um tipo de realidade muito diferente daquele que vivenciara na aldeia. Talvez se parecesse um pouco com aquela do mundo dos sonhos. O que poderia indicar que o tempo, em última instância, sentia-se mais confortável entre adormecidos do que circulando pelo mundo da vigília.
O jovem abriu um sorriso. Não podia se esquecer dessa pista. Talvez a mais sólida desde que começou a tentar decifrar o tempo. Então continuou o raciocínio, mas ele bifurcou-se, de um lado as respostas, do outro, oceanos de dúvidas. Optou por onde sentisse seus pés flutuando e o estranho receio de poder ter seus pés mordidos por criaturas desconhecidas. Perguntou. Se o tempo parecia ser algo manifestamente real, e, depois de tudo que percebera a seu respeito, florescia com mais vigor dentro do reino dos sonhos, então, não seria esse mundo sonhado, mais real do que aquele que conhecemos quando estamos de olhos abertos?
Essa pergunta tornou-o arisco, não poderia dar o menor espaço ao sono, sob o risco de quando acordar, haver se esquecido de tudo. Correu até a praia e mergulhou no mar. Prendeu a respiração e abriu os olhos, queria descobrir que mistério aquelas águas escondiam. Não encontrou grande coisa, aquelas eram águas rasas. Sentado na areia ainda sentia dor nos olhos, mas ela era a garantia de que não adormeceria sem querer. A pergunta possuía uma sombra, que em algum momento poderia ser considerada sua resposta. E em outros, se bifurcaria em muitas perguntas, respostas, raciocínios incompletos e conclusões absolutas. A partir daquela pergunta começou a perder a curiosidade sobre o tempo e voltou seus olhos para aquilo que o interessava, o mundo dos sonhos. E, mais do que isso, descobrir em qual dos dois estados morava a realidade, se é que ela possuía endereço fixo. Ou então, indo ainda mais longe em seu questionamento: se é que ela, a realidade, realmente existia.
Essa última possibilidade aferrou-o ao mundo da vigília, o sono desapareceu. A realidade poderia simplesmente não existir, e tudo o que se via, sonhava ou sentia, poderiam não passar de alucinações de uma consciência alheia. Se isso fosse verdade, (nesse caso verdade era uma palavra que deixaria de possuir um sentido) nada teria importância e qualquer decisão se tornaria irrelevante. Desapareceriam as dúvidas e as angústias que elas costumavam arrastar consigo.
Apesar de essa ser uma hipótese distante e pouco provável, o jovem deixou que o riacho de seu raciocínio fluísse mais um pouco, sem interrupções: e se ele mesmo não passasse de um personagem de um grande pesadelo, cujos atos além de não possuírem qualquer sentido, não geram consequências reais e não deixam qualquer rastro, nem ao menos a construção de memórias? Se descobrisse que, de fato, não existe qualquer tipo de realidade, como deveria agir? Encontraria uma falsa corda que amarraria a uma falsa árvore até descobrir-se mergulhado dentro de outro mundo, também falso, conhecido como morte? Ou então lutaria para construir ao seu redor um refúgio de realidade de sua própria fabricação? Refúgio que, a a partir de instalado, contaminaria os arredores e o transformaria no criador de um novo universo?
Ele juntou com as duas mãos bons punhados de areia e, lentamente, permitiu que escorressem por entre seus dedos. A realidade existia sim, talvez dependesse de pontos de vista variáveis, mas desistiu da trilha que começara a percorrer e que agora parecia terminar em um penhasco. Não queria mergulhar de tão alto nem parar de caminhar. Decidiu que, se precisasse escolher, seus únicos dois candidatos seriam o mundo dos sonhos e o da vigília, seria dentro deles que descobriria a existência ou ausência de um sentido para o universo.
O sol levantou-se e já estava quase perpendicular. O sono chegou devagar, em ondas, a próxima sempre mais forte do que a anterior. Não conseguia mais resistir. Levantou-se, e mesmo sem conseguir enxergar muito sentido em sua atitude, arrastou-se até o laranjal. A essa hora não havia ninguém ali. Deitou-se exatamente sob um galho que não estava longe de tocar o chão. A grande laranja quase avermelhada flutuava a alguns palmos de seu nariz. Fixou o olhar nela e em poucos instantes ela estava completamente verde.
Foi assim que aconteceu a transição. Ele estranhou, julgou que a luz não o havia permitido enxergar a cor real da laranja. Mas então se lembrou: sonhava. E esse seria mais um daqueles sonhos vívidos que experenciara, e que, talvez, pudesse se transformar naquelas corpulentas cachoeiras de imagens e sensações dentro das quais poderia se afogar, renascer, viver, utilizar todos os verbos possíveis em todas as conjugações imagináveis, e, subitamente, despertar ainda mais longe de qualquer conclusão.
Então, ao contrário do que aconteceu na outra vez, quando a complexidade do sonho se iniciou com uma caminhada, dessa vez decidiu permanecer deitado, olhando para a laranja que pendia sobre sua cabeça. Concentrou-se na fruta, reparou na casca, na maneira como ela se unia ao galho e nas folhas ao redor. Então desceu um degrau na direção da laranja. Ela pareceu mais próxima, não apenas no aspecto físico, mas também em todos os outros. Aos poucos, o verde passou a ser a única cor que existia. Mas, como disse, esse foi apenas o primeiro passo.
Em seguida, a fruta passou a ser o universo. Nada além dela já havia existido, nem mesmo ele. Isso, ele transformou-se na laranja e toda sua percepção de realidade resumia-se a ela. Mas as coisas não pararam por aí. Seus olhos e todas as maneiras de perceber a realidade transferiram-se para a laranja e, em primeiro lugar, ele passou a ter uma percepção de mundo igual à da fruta e em um segundo momento transformou-se nela. Então vivenciou a estranha e diluída consciência que possuem os vegetais. Como, no outro sonho, já havia experenciado a sensação de ser um louva-a-deus, e guardava dentro de um sonho, as memórias de outro sonho já acontecido, pode comparar as realidades.
Os vegetais possuem uma consciência que se desenvolve de maneira bastante lenta e passiva. Mas que não perde o senso de individualidade presente nas consciências dos insetos e dos humanos. Uma fruta é capaz de sentir medo, mas ele é diluído e vago. Como uma pessoa que tem medo que um cometa lhe caía sobre a cabeça. Ninguém realmente fica sem dormir por causa de cometas. O mesmo acontece com as frutas, seus medos são frágeis e distantes. Apesar de possuírem uma vaga e nublada noção de si mesma, uma laranja desconhece sua finitude. Uma fruta pode sentir algo que se assemelha a alegria, em uma bela manhã ensolarada, quando a árvore carregada de nutrientes, envia todo o alimento que ela necessita e o sol aquece seus gomos, a fruta é feliz. Apenas porque, por estar saudável, está existindo de maneira plena.
Não há necessidades, além das básicas, ou inquietações. O que parece é que a consciência que habita o homem é a mesma que abana o rabo do cachorro, os galhos de uma árvore ou a paz de um rochedo. O que se modifica é a concentração. Maiores concentrações acarretam mais medos, dúvidas e alegrias. Menores, trazem uma paz anestesiada que pode ensinar algo àqueles poucos que tiverem a oportunidade de experimentar ambas as vivências e conseguiram guardar memórias dessas vidas. Essa frase pode soar estranha, mas aqui vai: homens e laranjas têm muito a aprender uns com os outros.
Continuemos, nesse ponto é grande a tentação de abrir um parênteses para comparar consciências dissolvidas com literatura da mesma consistência. Mas vou aguentar e me ater ao sonho e ao mergulho na direção da essência da laranja. Ele era a laranja, enxergava o mundo como faz uma. Sentia seu interior úmido pressionando as cascas. Com os homens, esses possuidores de consciência concentrada, acontece algo parecido, o tempo faz com que seus interiores molhados, com o transcorrer das décadas, façam de tudo para escapar da embalagem. Mas, estranhamente, homens experimentam menos essa sensação do que laranjas, talvez porque possuam muitas outras coisas para distraírem suas consciências.
Ele sentia seu interior desejando esparramar sucos pelo mundo. O que naturalmente acarretaria sua própria destruição, mas isso não o incomodava, pois afinal, a morte para ele era algo tão real quanto o sexo ou o tempo. Constatada essa situação interna, que em nada modificou seus humores, a laranja, que já não era mais o jovem, continuou sendo laranja, e desejava sê-lo na plenitude. Para isso deixou-se levar para os fundos da condição de laranja. Experimentou o vento balançando a fruta, mas isso era uma interferência externa, queria deixar de lado tudo que não fosse ela mesma.
Tudo ocorre lentamente, e laranjas que desejam autoconhecimento correm o risco da impaciência. Sentimento raro, como todos os outros, no reino vegetal. Sentiu que algo se movia em seu interior, talvez o sumo começasse a escorrer por alguma rachadura na casca. Lentamente também, a fúria desapareceu, a paz vingou e finalmente ela pode tentar descobrir o que é ser uma laranja. Sentiu seus gomos internos, o sumo que os nutria e os fiapos que amarravam suas entranhas. Depois experimentou a consistência da casca e o pequeno caule que a prendia ao galho. Então uma sensação sólida, que nunca ocorria em frutas e parecia emprestada de uma consciência mais concentrada, tomou conta de sua percepção de mundo. Na verdade, transformou o mundo em si mesma. Compreendeu suas conexões, como cada semente funciona e a importância da árvore para sua sobrevivência. Entendeu também sua transitoriedade e a maneira como seu corpo poderia servir de semente ou alimento.
A compreensão logo se dissolveu na paz característica das frutas. Ela era. E nada mais importava. Não havia escala evolutiva. Cada grão de areia possuía a mesma importância do que a mais concentrada das consciências. Todos eram. E não poderia haver nada maior ou menor do que isso. A paz, em seguida, deu um passo adiante, inútil descrever a sensação para aqueles que até agora apenas experimentaram consciências concentradas, mas há um caminho onde a paz plena avança e se torna o nada absoluto. Mas esse nada não é a ausência de todas as coisas, elas continuam em seus lugares originais, mas nesse estágio, a influência que exercem, e continuam exercendo, não possui qualquer comando sobre a percepção da fruta.
É um estado onde a consciência adquire uma independência plena.
Aqui uma digressão do escritor torna-se inevitável. Esse estado de consciência, onde a plenitude invade toda a realidade, se pudesse ser vivenciado por homens e mulheres, acabaria destruindo a maior de todas as dúvidas literárias. Com uma consciência completamente quieta, não haveria razão para escolher entre ser ou não ser. A resposta estaria dada, e seria: ser. Não haveria também espaço para quaisquer outras palavras enfileiradas. Nenhuma delas teria qualquer poder diante da grande unanimidade.
Voltemos à laranja e a seu estado de plenitude. Consciência e existência misturam suas bordas e, finalmente, as confundem. Qualquer ponto no corpo de uma, corresponde ao mesmo ponto na outra. Todos os pontos correspondem a quaisquer outros e a consciência-corpo torna-se realidade. Tão plena existindo quanto deixando de fazê-lo. Acontecendo incógnita entre objetos e consciências de todas as ordens. Estando na exata fronteira entre a sombra fugaz e a rocha sólida. Imune a ele, mas simultaneamente, vítima de todos os tempos.
A laranja triunfando sobre reinos e algozes, sendo o poder real e eterno, que disfarçado e irônico, ri do encolhimento dos grandes generais, e da maneira sorrateira como as camadas de fungos esverdeados avançam sobre os bustos de bronze. A consciência plena também contém a não plenitude, e é ela, que desce dos sorrisos de desdém e tomba sobre a beleza das flores e sua respectiva mortalidade. É ela que conhece a história dos casamentos e amizades, das juras de amor e dos sonhos de poder, é ela que está ao lado dos artistas quando suspiram ao concluírem uma grande obra e julgam que, finalmente, a imortalidade desceu dos céus para se manifestar, e foram suas mãos que a trouxeram à vida.
A laranja atinge a perfeição quando seu corpo e espírito se encaixam sem deixar sobras. Suas vontades têm o tamanho das respectivas negações e, muito além de qualquer objeto físico, além do sol e de qualquer luz, essa essência una manifesta, imprime sobre o mundo uma sombra que não precisa do dia para manchar o chão. É o mais profundo sulco que jamais rasgou a terra.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
