‘O fluxo contínuo de nossas experiências’, um prefácio de G. Monteiro



Crédito: Foto de Maiar Saeed, Criador: Maiar Saeed




Esta reunião de contos não poderia ter título mais eficiente. Nairton Pessoa assina 27 trechos a revelar extensões íntimas frequentadas durante as páginas. Tal como concebidas, encontramos neste “Trechos de livros que nunca escrevi” (obra no prelo) fluido de personagens inclinadas à espontaneidade consciente diante de regras e doutrinas a rigor. O resultado é uma prosa essencialmente meditativa, assinalada por efeitos de estilos por onde podemos coexistir. A sinergia aponta para a vida investigada Da porta para dentro e Doutras portas. Em ambas as entradas, os textos se encontram no intuitivo articulado. Verdade é que se possa chegar ao entendimento de que sentir está além de explicar os quês e os porquês. Nessa perspectiva, a concisão dos contos ressoam em pedaços de infinitos dialogados em incessante jornada extralinguística. Em toda a obra – a essência imensurável da busca interior.
 
Todavia, o campo ontológico não se esgota em supraditos. Lemos um ensaio filosófico, um longo poema com tramas e monólogos faiscantes. Vivemos uma sintaxe de ficção sem rigidez de sociologia que velaria a contemplação, tátil ou não. Ultimar uma restrição de sentido nos textos seria perder a liberdade de ser.  Portanto, coragem e descobertas a nos situarmos por entre escombros de um enorme prédio íntimo. O livro é estado de espírito e inspira fendas não menos tristes ou alegres. Contudo, com nossas próprias e inéditas luzes e escuridões. Logo, destinado ao campo imagético, o autor tornar-se leitor da própria escrita. Os contos refratam perdas, ganhos, rebentos, revisões, logram saldos, vivem mínguas. Sem nenhum heroísmo, mas com a ousadia em dimensões simbólicas, os limites do humano reagem aos projetos de poder travestidos de regimes de verdade. Poder com suas leis, normas, costumes e sanções “organizando” a vida do vulnerável trabalhador, do chamado “homem comum”. Conquanto, longe de construções romanticamente gloriosas ou proféticas, o lugar social do “autor-leitor-sujeito-lírico” compreende inspiração em desafios de nossos tempos de desenfreado avanço de algorítimos, de IA. Nesse percurso corajoso, continuado, mas nada definitivo, as circunstâncias sociais precipitam a problematização. Nela, o universo simbólico não se aprisiona no mito; o lugar de fala povoa limites e contradições, riscos e frustrações. Sentimos pulsão de personagens em eus poéticos movimentando silêncios estranhos e legítimos através de ações insinuadas, instáveis. Ações sempre reveladoras ao coexistirmos com nossos trechos que não precisam serem escritos. Ou melhor, situamo-nos fora da escrita para que ela exista. Por consequência, em “Trechos de livros que nunca escrevi” não há importante compromisso com estruturas de enredos, com descrições explícitas de espaço-tempo, enfim, com os indicativos da contística tradicional. Todavia, não há floreios, preciosismos e truques da moda. E eis a árdua e profunda simplicidade tão cara ao autor. Nessa esteira, a unidade não contempla linearidade, roteiros bem marcados. No lugar de traços lógicos, ocontrole do texto está em nossas idiossincrasias com a leitura.Dessa forma, pulsões e (re) ações longe de rituais indiferentes a vontades que não emergem de nossas fontes.  Nessa frequência, a forte e investida psicológica, como já mencionado, não pretensa sublimidade ou qualquer outra superação a fragilizar à narrativa. O eu se tenta na sede e na fome, nas vicissitudes recorrentes, onde Nem tudo são escombros, nem tudo é destruição. Por vezes, a alma pede instantes para se arrumar as prateleiras. Livre de místicas conclusões – o homem chega junto dos propósitos aos canais do ser, ao próximo ato de existir. Por outro lado, não padece de ilusão a semideuses de nenhuma sorte.  A ideação literária de n pessoa é um longo poema disperso em sua unidade, talvez porque as imagens poéticas melhor estimulariam o comportamento humano. Nesse cenário, quando vivido ou não, quando doído ou feliz, este livro é uma pergunta sem o aboio da busca. Não há o narciso de mergulhar no “pós-moderno” do não mergulho fabricador de belezas, de sonhos. Em sentido contrário, a resistência a este tempo, sobremaneira, de bancos de dados – ao indivíduo alheio à sua própria força, onde se escoram seus papéis na vida.
 
Se cada conto traz a aparência de todo o livro, haveria por que desconfiarmos de prefácio genérico? De Um dia, uma rosa à Primeira ceia, os alheamentos estruturais não repercutem nas personagens monologais nairtoneanas. Mesmo assim ou por isso mesmo, peguemos aleatóriamente o exemplo do conto “De todos os dias”.  O homem em seu meio e sua solidão de vida, seus hábitos latentes no passeio sutil e distante. A exterioridade é seu sono não domesticado. O que resta são horas a mais nas entranhas de como a vida genuinamente funciona.  Instantes imperceptíveis na trajetória do que comumente se autentica por cidadão/cidadania. O que resta é forjar escolhas autênticas, ainda que não menos desafiadoras. Ou melhor, nossas preferências em espaços trabalhando o silêncio. No entanto, tão negligenciado pelo “algo em comum”. Olhos, vértebras no escuro reagindo à felicidade obrigatória. Portanto, a calmaria intangível, a indiferença atenta à condução do sujeito. Nesse universo de flashes, o humano reside na habilidade da solidão. É quando, neste trecho de outros trechos deste livro, o viver ocupa o estabelecer, o silenciar não se omite: o dia comum rompe em símbolos. O sentido da vida é anônimo uso sem revelia. Assim, é recorrente o inacessível experimentado no comezinho. A vida é irreal diante da urbanidade domesticadora. O estranho de si some para derrubar a casca seca e dolorida dos costumes habituais. Nesse sentido, o indivíduo se reconhece na estrutura flutuante da morada, do trabalho na expressão de alicerce e andaimes além do momento. Num mundo de donos, ecos da personagem/personagens “De todos os dias” assumem o perigo da escrita:  percorrer os chamados sem decisões customizadas. Para enfatizar, temos em mãos 27 intervalos narrativos de diversas e diferentes vivências; aproximadas no expediente do recorte e sua íntegra. Leiamos “Chova”, outro exemplo casual do espectro uníssono de n pessoa a trama se ramifica nas profundezas da terra, busca umidade, água implícita. Pisamos esse mesmo chão de nossas páginas, a fim de conferirmos – surpreendidos e renovados – a urdida tempestade, porque temos corpos nascidos para sol e chuva. Enquanto isso, nossas raízes continuam na narrativa do implícito identitário, e não essencialmente “na vida lá fora”, na cidade e seus empreendimentos “nada pessoais”. Por entre nossas tempestades, inovamos as leituras de nossa identidade. Do contrário, a literatura deixaria de existir, seria um dado esgotado por nossa lógica de existência. Nada em definitivo, absoluto. Também nada de impossível na incompletude.
 
 Noutra abertura arbitrária de página, “O gato, vinho e um livro” verte à cumplicidade ao cotidiano sem as vicissitudes travestidas de “dia comum” que esconde eventos complexos.  Nesse conto, a metáfora do homem e sua solidão de vida, seus hábitos latentes no passeio sutil, instintivo. Um Hipnos, sono em forma felina, quase gente. O gato e sua condição de bicho doméstico. Porém, o mesmo de rua do ponto de vista das entranhas praticadas nas horas imperceptíveis do tempo por entre saltos dos muros aos tetos. Logo, esta existência que se salva no colo da incapacidade humana de domesticá-la integralmente. Senão a vida não forjaria a escolha pelo animal; ou melhor, pelos esconderijos do humano trabalhando o silêncio.  Os ecossistemas interinos e fora do ser espantam o gato, e o faz expor suas unhas comunicando seus olhos de fogo. Olhos, vértebras no escuro deste homem de vinho e livro. Um ser do qual a calmaria intangível do bicho se assenhora. A indiferença atenta à sua condução. Este universo de flashs ronronam o percurso de todo o livro. A tríade Gato-vinho-livro frequenta o impossível viável. Nesse sentido, um eu e seu ineditismo flui em todas as narrativas. O homem já não consegue ser meramente tutor de seus mistérios, de suas camadas mais íntimas. Conquanto, cumpre-os em fase de buscas protagonizando sensações. O gato se alimenta da falta de tempo advindo da dinâmica social. Seu guardião some para se reconhecer na estrutura flutuante da calda às antenas em vivos esquecimentos. Ação caindo em pé. Num mundo de donos, o homem percorre seus chamados mais sensíveis de suas ausências, visto ter O gato a quem não coube nome rodeia. (…) a mutabilidade e inconstância o fizeram Gato, (…). Não coube em um nome só e se impôs. É Gato.
 
Seguramente, Nairton já conquistou, neste livro de estreia, uma construção literária visivelmente particular. Sua sintaxe projeta repentinos e disseminados agridoces permitindo, a nós leitores, descobertas sem aprisionamento à obra. Para enfatizar, a literatura do eu, é a recorrência de uma alma sempre se procurando com mãos soltas. Por isso, esta obra é uma pergunta sobrevivendo de respostas provisórias, contínuas. Quando se chega ao que está após o ponto derradeiro, não há contemplação ou mesmo perturbações. (…). E diante desse universo de nada que se tornou, passa-se a ser tudo. Por outro lado, não há contradição de fechar lacunas e abrir outras. Tal ética se pronuncia em preferir a multiplicidade de sabores a soluções. Quando crer ou não crer são possibilidades, e se o são, por que não vivê-las, de algum modo, na frequência em elas se despontam?  Isso dito, contamos com um autor estreante, porém, em nada principiante. Nairton Pessoa chega com evidente fôlego e reservas para uma promissora tragetória literária. Afinal, “Trechos de livros que nunca escrevi” nos desperta fluxo contínuo de nossas experiências.
 





G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021), Gestos do nada (Litteralux, 2026) e O direito à imagem (no prelo).






P3N4 – Nairton Pessoa do Nascimento; Formado em Letras/Português – UESPI; Especialista em Estudos Literários – UESPI; Professor de Linguagens – SEDUC-PI. Em processo de organização do livro de contos “Trechos de livros que não escrevi”. Alma inquieta e intuitiva, levado pela prosa e pela poesia, por vezes no espaço em que ambas se juntam.


Respostas de 2

  1. Ao se expor um texto, lançá-lo, perde-se o controle das interpretações. Tornam-se muitas, variam e o texto deixa de ser, muitas vezes, aquilo a que se propôs. Isso é natural, humano.
    G. Monteiro consegue, tem essa força, atingir camadas sugeridas e pontos em que deixo o leitor seguir uma linha peculiar e que lhe diz respeito. G. Monteiro percebe as intenções no texto e as possibilidades outras com domínio e sensibilidade como força de sua própria literatura em uma produção de texto à parte que caberia, muito bem, em qualquer obra de relevância da Literatura, como é a sua forma de se deixar nas linhas.
    Sinto-me lisonjeado pela sua sensibilidade.

  2. A obra é sempre maior que o prefácio e que a crítica seja em qualquer gênero. A crítica é posterior e secundária. Meu prefácio veio com esta consciência e mergulho.
    Que venha a publicação do livro para os leitores confirmarem, com sensibilidade ao estilo, o que digo aqui.
    Sigamos!

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