
Vou te matar. Decidido. Só preciso descobrir quem você é.
É essa a maneira que descobri para dar um sentido para o quê não tem: vida. Destruo a alheia para justificar a minha. Covardia? Pode ser, mas qual é o problema disso? E se for pego? Se minha vida não tem sentido então tanto faz onde a passarei. Nada poderão me fazer, sou o inimputável cujo único risco seria encontrar um juiz ou algoz que conseguisse dar sentido a minha vida. Esse homem teria o poder de destruir minha zona de conforto, fazendo com que eu voltasse a temer algo. Do jeito que estou não há deus, polícia, cadeia, bandido, doença, não temo nada, nem a mim mesmo.
Odeio quase tudo. Deve haver algo que não odeio, mas agora não consigo me lembrar. Mas como não conseguirei matar tudo o que odeio, preciso eleger prioridades. Se fosse honesto diria que não odeio nada tanto quanto meu próprio cheiro, por mais que esfregue meu corpo com sabonetes e cubra-o com perfumes, há um odor que sobrevive a esses esforços, contamina onde quer que eu vá. Leio esse cheiro no passo extra de distância ou nos olhos que desviam dos meus. Carne podre, mijo, merda e porra, é uma mistura disso o que espalho pelos ares. Honestidade? Para que serve isso? Se fosse exercê-la não poderia matar ninguém porque já estaria morto. Portanto serei obrigado a conviver com meu próprio cheiro.
Vamos aos candidatos, caminho ao seu lado, sob o sol do meio dia ele dorme enrolado em cobertores. Pedaços de papelão separam seu corpo da pedra, o rosto encavado tem cor de cobre queimado, os velhos tênis desamarrados ainda estão no pé. Ele tem sono pesado, consigo descobri-lo, é magro, feio, está abraçado a um saco de lixo cheio de porcarias. Ele abre a boca, tem dentes pontudos e estragados, como um animal de segunda linha. Fede, mas seu cheiro é diferente do meu, parece cachaça com vômito.
É um perfeito exemplar para ser abatido, não serve para nada, droga-se, o que ajuda a diminuir a noção que tem de si mesmo. Durante o dia diz que cuida de carros, mas ao mesmo tempo informa para os ladrões os que são fáceis de serem roubados. É alegre, falador, um pretinho que toda a vizinhança respeita. Devo conquistar sua confiança, gorjeta gorda, olhar no olho, tapinha nas costas, ele deve acreditar que tem um amigo. Enfio-lhe a faca no coração depois de acender seu cigarro. Não. Preciso degustar melhor sua morte, um prato de comida envenenada faria com que eu enxergasse a vida levantando-se para ir embora. Ele pediria solidariedade e ouviria ausência. Mas talvez esse exemplo de lixo humano, não seja o tipo ideal para saciar meu desejo de assassinar alguém. De uma certa forma ele já está morto, se cortasse seu pescoço talvez não sentisse nenhuma espécie de satisfação.
Caminho mais um pouco enquanto observo de longe o mendigo embebido em seu sono inocente. Entrando no Shopping Center descubro muitas moças bonitas, normalmente abraçadas a rapazes musculosos, vivem suas vidinhas para consumir e reproduzir, para que seus filhos e netos possam continuar consumindo. Tão lindas, pele clara, cabelos louros longos, corpo bem torneado, cheirosas. As vaquinhas reprodutoras só pensam nelas, os outros, o mundo, nada existe, merecem ser degoladas em um estacionamento de shopping, talvez decapitadas para que o caixão tenha de ser fechado. Elas só servem para consumirem porcarias, são vazias, mesquinhas. Mas são mais difíceis de serem assassinadas, talvez um esbarrão com um guarda-chuva com ponta envenenada, ou o corte dos freios de seus carros de luxo. O importante é que em um dado momento percebam que perderão para sempre o poder que exercem sobre os homens, e que durante um dia se transformarão em algo que desperta o nojo, e então desaparecerão para sempre.
A beleza pode ser tão sórdida quanto a feiura. Eis o que vejo, a mediania. Um homem de quarenta e poucos anos, nem alto nem baixo. Nada nele se aproxima dos extremos. Observa vitrines com o discernimento dos que podem conseguir algumas vantagens. Deve ser casado com uma mulher de beleza anódina, de personalidade submissa, a qual ele mesmo não faz questão de explorar. Sua amiga arruma a casa, prepara as refeições e deixa as roupas sempre prontas para serem usadas. Seus sonhos são tão mesquinhos que não me atrevo a reproduzi-los. O homem é contador, a mulher se ocupa da casa. Eu o odeio mais do que aos outros dois candidatos precedentes, esse saciaria de maneira mais plena meus desejos de violência. A velha tática da amizade, com tipos como ele não deve ser fácil simular amizade, almoços na sua, na minha casa, passeios por alguma mata, acidente de caça, lamentamos a morte de nosso querido amigo.
Saio do shopping, me irrita aquele ambiente artificial, caminho por ruas alternativas, não demoro a encontrar outro candidato, esse acho que terei de ser direto, faca no coração e tiro no peito, é o típico estudante universitário de universidade pública. Barbinha, cabelo encaracolado, bolsa lateral com uma foto do assassino Che Guevara, bolso interno para esconder a maconha, acha-se um revolucionário que luta por um mundo melhor. Na verdade o que faz é beber na cantina da faculdade, jogar futebol com bola de tênis no pátio, fumar muita e vender alguma maconha. Afora isso, eles protestam, os temas dos protestos são a parte mais difícil, pois precisa haver uma escolha, debatem se devem lutar por uma universidade livre da ameaça capitalista, ou se a disputa deve girar em torno da melhoraria da sobremesa no restaurante universitário. Essas decisões são sempre tomadas em assembleias coletivas (qualquer decisão individual denunciaria resquícios de um capitalismo que está em vias de extinção). Gostam de andar de bicicleta, mas só quando não precisam pedalar muito. Acreditam que em um eventual governo comunista, todos os problemas sociais seriam resolvidos, a pobreza seria varrida da Terra, e a felicidade, aos poucos, começaria a tomar conta do planeta, até tornar a Terra uma bola feliz e generosa, onde os seres humanos, libertos das amarras pequeno-burguesas, espalhariam suas vida dentro de bacias de sexo, comidas e drogas que pudessem aumentar a capacidade de percepção, fazendo com que os usuários conseguissem descobrir novos mundos, e trazê-los para o nosso, para que pudesse acontecer o melhoramento da inteira raça humana. As mentes enfraquecidas pelo consumo de quatro horas diárias de maconha, trabalham de maneira alfanumérica, distinguindo bons de maus, e se colocando ao lado dos bons, que justificam “Lutamos por um mundo melhor”. Mas essa luta deve acontecer dentro de certos parâmetros, é vedado ao inimigo qualquer reação, nem mesmo as que vêm sob a forma de advertência ou multa. A luta, considerada moral, deve receber inspirações de ervas nascidas da mãe natureza, e distante do agronegócio. E há outro item, nesse estatuto não escrito, o inimigo não terá direito a contrapor quaisquer argumentos, não poderá negociar, apenas atender as reivindicações e se calar.
Uma merda humana dessas, classe média sustentada com o dinheiro e a submissão dos pobres, parasita de uma sociedade cuja desigualdade, no fundo, ele ama, e que em qualquer país comunista de verdade, seria punida com um tiro na nuca, essas porcarias inúteis tornam esses tipos grandes candidatos para minha escolha.
Mas, vamos lá, um pouco de condescendência, eles são antes de tudo, idiotas, provavelmente filhos de pessoas na mesma condição, a determinação genética amolece um pouco meu coração, e vale também para os mendigos craquentos, as gostosas de shoppings, os contadores sem graça. Reconheço essa idiotice na maneira como conduzi minha vida até aqui. Se sou igual a eles, qual o direito que tenho de matá-los? Meu desejo existia quando me julgava superior. Se quisesse matar alguém teria de escolher aquele que mais me incomoda, eu mesmo. Suicidar-me porque não suporto meu próprio cheiro e principalmente porque descobri que sou um idiota. Poderia estourar a cabeça de três ou quatro filhos da puta e depois dar um tiro no peito, para que só os miolos alheios fiquem espalhados. Hitler antes de se matar pediu para que queimassem seu corpo, não queria terminar em um museu russo. Acho que não vou promover chacinas para não virar tema de um debate entre sociólogos e professores universitários em algum programa de televisão a cabo.
Se quase todo mundo merece um tiro na testa, então acaba que ninguém merece. O pacifista é um tipo muito parecido ao facínora, só que mais hipócrita. Escondo meu ódio atrás da perversão de um sorriso solidário. Encontro uma mulher, 27 anos, hora de casar, nutricionista, loirinha, magra sem exageros, família estruturada, casa boa, carro pago na garagem. Mãe gentil, louca por netos. Pai esconde a desconfiança atrás de um bigode nitzchiano. Quais são suas intenções? Minhas intenções são minorar minhas dores. Minha filha serviria apenas para minorar suas dores? Se ela fizesse isso direito eu ia ficar muito contente. Nunca pensou na vida dela? Para ser honesto com o senhor, não.
Maria será tua esposa, você deverá tratá-la bem. Pode deixar, ela vai ser minha princesa. Feito o casamento o noivo parecia ter os olhos cinzentos, não falava quase nada, sorria só quando lhe pediam, ela sorria esverdeado, não tinha certezas, mas apostava em mudanças, não podia negar, tinha medo dele, um rapaz que sempre parecera calado, agressivo. Decidiu arriscar, casaram-se, festa grande paga pela família do noivo. O primeiro mês foi todo dedicado ao sexo, mas ele sabia que não suportaria uma vida assim, a partir de uma determinada quantidade, o sexo se transforma em tragédia. No segundo mês substituiu o sexo pelo tabaco, sentiu-se melhor que no primeiro mês. Ao mesmo tempo, quando os dois estavam no leito matrimonial, ele a inquiria sobre uma série de questões, algumas delas ela respondia com naturalidade, em outras constrangia-se um pouco, e havia algumas que ela se recusava a responder, depois de muita pressão e soluçando sem parar, ela respondia, não sem antes olhar seu inquiridor com olhos cheios de ódio amarelado, e ia para o banheiro chorar.
Quando perguntava, o rosto do rapaz era frio, não entendia porque aquelas palavras pudessem afetá-la de maneira tão violenta. Ele percebeu que havia casado com uma mulher moralmente fraca, e que para se defender desse defeito de caráter precisava aplicar doses maiores de rigidez.
Um dia, na cama, percebo o embuste, enxergo-a como ela é, uma combinação de percentual de gordura, harmonia das formas e quantidade de óvulos viáveis. Os genes criaram uma armadilha perfeita, se caísse dentro daquele buraco sujo seria somente para duplicá-los. Feito isso, não haveria mais razão biológica para que eu continuasse existindo.
Elejo-a. Precisava exterminar o mal pela raiz. Trás um suco de maracujá enquanto brinca com as unhas nos pelos do meu peito, desvio o rosto, não quero que perceba minhas intenções, seu grande sorriso abre-se, desconfio de sua boca. O suco acalma, abraço seu ombro de modo que não consigo ver seu rosto. Ela diz bobagens sensuais, eu permaneço em silêncio, pensando que talvez o melhor método mesmo seja o estrangulamento. Hoje eu tô tão gostosa, olha aqui, minhas curvas, minha bunda, se encostar em mim eu engravido. Fui obrigado a sorrir, mas acho que saiu tão falso, que vi sua expressão entristecida. Envolvo seu pescoço com minhas mãos, simulando carinho, ela fecha os olhos como alguém que não terá forças para lutar contra seu destino. Coloco meu polegar esquerdo no buraco mole do pescoço, devagarzinho começo a aumentar a pressão. Quando ela abre os olhos percebo como estão asquerosos, minha doce nutricionista também esconde suas maldades. Em um movimento rápido ela libera-se de minhas mãos, apanha uma faca embaixo do travesseiro e enfia-a no meu peito.
Depois fica de pé, olhando-me com olhos confusos, mais curiosidade do que compaixão. Sinto o sangue esvaindo em grande quantidade. Estou morrendo. A vista turva ainda me permite ver quando ela abaixa minha calça de pijama e começa a masturbar-me em busca da satisfação de seus desejos.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
