
Ilustração: IA sobre desenho de Ângela Rêgo.
Foi um frade franciscano quem, embora indiretamente e mais de um século depois de sua morte, acabou fornecendo argumentos que ajudariam a mudar os rumos da história da Inglaterra. Chamava-se William de Ockham, nome pelo qual ficou conhecido por ter nascido, provavelmente por volta de 1285, na aldeia de Ockham, em Surrey, a cerca de 30 quilômetros de Londres. Sua obra discutiu, entre outras questões, os limites da autoridade do papa e a autonomia do poder temporal dos governantes.
Ockham morreu quase dois séculos antes de Henrique VIII iniciar sua luta contra Roma. Em 1495, foi publicado um volume que reunia e resumia pensamentos e escritos ligados à sua obra. Um exemplar desse livro, que fez parte da biblioteca de Henrique VIII, foi encontrado em 2015 pelo historiador James Carley, na biblioteca de Lanhydrock, na Cornualha.
As marcas encontradas em suas páginas não registravam anotações do próprio rei, mas vários trechos estavam assinalados por seus secretários e assessores. Entre eles, uma passagem cujo título pode ser traduzido como “Quando é permitido retirar-se da obediência ao papa”. Henrique VIII procurava argumentos para enfrentar a autoridade de Roma, por isso alimentou-se do pensamento de Ockham para ele próprio anular seu casamento com Catarina de Aragão e se unir a Ana Bolena. Mas o papa Clemente VII recusou-se a concedê-la. Henrique passou então a questionar a autoridade papal na Inglaterra, fato que resultou no Ato de Supremacia, pelo qual o rei foi reconhecido como chefe supremo da Igreja da Inglaterra, criando a Igreja Anglicana.
Depois de conseguir romper com Catarina de Aragão e casar-se com Ana Bolena, Henrique VIII não conseguiu o filho que tanto desejava. O casamento durou pouco mais de três anos. Ana foi presa, acusada de adultério, incesto e traição, condenada à morte e decapitada em 19 de maio de 1536. O rei, que havia enfrentado o poder de Roma para chegar até ela, logo se casaria novamente, com Jane Seymour, a terceira em meio às suas seis esposas:
Catarina de Aragão, casamento anulado.
Ana Bolena, decapitada por traição, conspiração e adultério.
Jane Seymour, morreu por complicações pós-parto.
Ana de Cleves, casamento anulado.
Catarina Howard, decapitada por traição.
Catarina Parr, sobreviveu ao rei.
Essa história está contada em detalhes em meu romance histórico “Tragam-me um espadachim!” (Nova Aliança, 2018).

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).