
Durante uma formação em teatro promovida pelo sindicato, os formandos foram convidados a disputar a posse de um objeto. Não se tratava apenas de o segurar, mas de o conquistar pela palavra: persuadir, desarmar, contornar, vencer. Cada gesto vinha acompanhado por uma frase; cada frase, por uma intenção. O objeto, quase irrelevante, tornava-se o centro de um pequeno conflito retórico.
Alguns entraram no jogo com naturalidade. As suas vozes encontravam rapidamente estratégias, os argumentos surgiam com a fluidez de quem já conhece o terreno. Havia astúcia, improviso, pequenos truques que se organizavam e reorganizavam ao ritmo das respostas do outro. Era um combate quase sempre elegante, mas não deixava de ser combate.
Quando chegou a minha vez, hesitei. Não por falta de palavras, mas talvez por excesso delas, ou mesmo por desconfiança em relação ao uso que ali lhes era pedido. Não encontrava aquela personagem dentro de mim e tinha dúvidas se conseguiria alinhar-me com aquele tipo de discurso, responder à altura, entrar na dança da disputa. Isso implicaria aceitar, mesmo que provisoriamente, as regras daquele mundo: possuir, convencer, ganhar.
Diante da chave que o outro desejava, decidi deslocar o sentido da própria situação. Chamei a chave de pássaro. Disse que não a podia entregar, porque estava a fazer ninho. A frase pairou no ar, inesperada, como se tivesse aberto uma janela para um outro espaço, e a chave, agora pássaro, tivesse voado através dela.
O outro tentou sair daquele mundo de aparente demência, trazendo de novo a disputa para a dimensão verossímil.
Mas aquele desvio não se deixava facilmente capturar.
Mesmo assim, pronto a alcançar a posse da chave, insistiu.
Eu, porém, não prolonguei a invenção nem a defendi com afinco.
Acabei por ceder a chave.
E, num gesto ainda mais espontâneo que o improviso anterior, aproximei-me do outro e abracei-o. O abraço surgiu quase em simultâneo, como se ambos tivéssemos reconhecido, por um instante, a inutilidade da disputa. Os corpos encontraram-se numa breve suspensão do jogo, onde já não havia vencedores nem vencidos.
E, até ao fim da primavera imaginada, a chave continuou a fazer ninho, indiferente a quem a possuía.
Lisboa, 06 de junho de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.