
” O filme mais belo do mundo”. Assim se expressou o cineasta francês Françoise Truffaut em relação à grande obra de Friedrich Wilhelm Murnau, o cineasta do supremo lirismo. Murnau nasceu em 1888 em Bielefeld, Vestfália no Império Alemão, e faleceu em 1931 em Santa Barbara, Califórnia, nos Estados Unidos.
Foi expoente no Expressionismo Alemão e do Kammerspiel (Teatro de Câmara) que consistiu em um movimento do Cinema que ocorreu na década de 1920, que tem como característica o pouco uso de diálogos e o foco na personalidade dos personagens. Neste movimento esteve ao lado de outros expoentes da arte cinematográfica como Carl Mayer e o Georg Wilhelm Pabst.
Der Student von Prag (1913), O Gabinete do Dr. Caligari (1920), Von morgens bis mitternachts (1920), Der Golem (1920), Der müde Tod (1921), Nosferatu (1922), Fantasma (1922) e Schatten (1923) foram filmes marcantes, altamente simbólicos e estilizados, que fizeram parte da Deutscher Expressionismus, o importante movimento expressionista que ocorreu no cinema e na pintura, como uma das séries de movimentos criativos na Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial, e que atingiu o auge em Berlim durante a década de 1920.
A Alemanha foi berço dos gênios musicais Bach, Beethoven e Brahms, dos escritores gigantes do Romantismo Schiller e Goethe, bem como dos filósofos geniais Kant, Schopenhauer e Nietzsche.
A Alemanha que sentiu profundamente a barbárie do nazismo que se alastrou por vários países, trouxe por outro lado uma cultura de elevado nível que inspirou muitas outras tradições ao redor do mundo. No cinema o expressionismo, de forte cunho psicológico e teatral, aliado à arte da música, influenciou o cinema americano de terror dos anos 30, com seus cenários estilizados e sombrios bem como o cinema noir dos anos 40, que teve diretores como Fritz Lang, o criador da obra-prima Metrópolis, Billy Wilder, Otto Preminger, Hitchcock e Orson Welles, alguns deles tendo saído da Alemanha e criado carreiras sólidas nos EUA.
Por volta de 1910, o grande diretor teatral Max Reinhardt viu o extraordinário desempenho do jovem Murnau e decidiu convidá-lo para a sua escola de atores. Murnau logo se tornou amigo de Franz Marc (uma das figuras mais importantes do movimento na pintura), Else Lasker-Schüler (poetisa de origem judia e também afiliada ao movimento) e Hans Ehrenbaum, banqueiro judeu e músico, falecido no fronte russo durante a Primeira Guerra Mundial. Depois de filmes emblemáticos como Nosferatu (1922) e A Última Gargalhada (1924) Murnau foi convidado pelo grande produtor William Fox para trabalhar em Hollywood, tendo partido para lá em 1926. No ano seguinte, realizou para os estúdios Fox aquela que é considerada a sua obra máxima: Aurora (Sunrise, 1927), além de Os 4 Demônios, A Garota da Cidade e, fora do sistema de Estúdios americanos, o independente e emblemático Tabu de 1931, lançado uma semana após seu falecimento.
O legado humanista, cultural e artístico da Alemanha ao longo dos séculos é um tesouro universal, e nos faz lembrar que o homem pode ser capaz das piores atrocidades, mas também pode nos legar tradições repletas de um simbolismo universal, carregado de beleza e amor à humanidade, que são atemporais. As imagens de Murnau certamente estão neste repositório infinito de tesouros, que estarão de forma perene à disposição das eternas futuras gerações.
Andrey Luna Giron é poeta, músico, maestro, artista plástico, fotógrafo e budista. Tem 5 livros publicados de poesia – Cósmicas pela editora Protexto, Claritas, Mistério Aceso, Do Fundo Da Palavra e Terra Celeste pela editora Insight. Participou das Coletâneas 100 Anos da Semana de Arte Moderna e Amazônia em Prosa e Verso da AIAP Brasil. Gravou CD de música clássica contemporânea com composições próprias com o grupo Ethos Fractallis realizando concerto de lançamento no Museu Guido Viaro e distribuído nas mediatecas de Paris. Fez trilha sonora para cinema e tem várias composições orquestrais e para piano. Trabalha no Museu Guido Viaro onde faz recepção, monitorias e palestras semanais sobre cinema no Cineclube Espoletta deste Museu.
