
“Essa canção é de um grande mestre: Francisco Gileno, parceiro querido que conheci na década de 70. Foi parceiro de Naná Vasconcelos”.
“Francisco Gileno viajou pelo mundo inteiro, carregando o Brasil e mostrando sua arte”.
“Francisco Gileno, essa raiz brasileira, de uma diversidade incrível. Ele, que faz maracatu, faz samba, faz xote, faz baião…”
Geraldo Azevedo.
As frases acima rechearam o palco de uma apresentação ao vivo de Geraldo Azevedo, que acabou por dar forte impulso à música “Tudo é Deus”, de autoria do eclético músico baiano Francisco Gileno. Ao incluí-la como parte de seu repertório no álbum “O Brasil existe em mim”, de 2007, Azevedo presenteou o amigo com a gravação da décima-primeira faixa do CD “Kalifa do Forró”, lançado por Gileno em 1990, além de executá-la em seus shows e em postagens nas redes sociais.
Após a gravação feita pelo músico pernambucano, a música de Gileno foi catapultada de forma rápida e inesperada, alcançando pessoas que vêm demonstrando nas redes sociais algo em comum: o bom gosto musical. Esse súbito arranque de “Tudo é Deus” indica não apenas que Geraldo Azevedo acertou em cheio na escolha, mas também a qualidade de sua natureza artística, sua beleza estética e sua contagiante melodia.
Em diversas oportunidades, Franciso Gileno deixou transparecer os seus agradecimentos a Geraldo Azevedo, por ajudá-lo a alavancar um sucesso que tem agradado a crianças, jovens e adultos. Além do decisivo prestígio que Azevedo emprestou a Gileno, a música se multiplicou rapidamente por duas razões. A primeira está relacionada à própria melodia, cujo ritmo expõe uma cadência contagiante e uma sequência de versos sonoramente e musicalmente agradáveis, bem distante da invasão de letras ofensivas, que muitas vezes incitam à violência e depreciam a mulher, por exemplo, e que compõem muitos repertórios massificados de algumas bandas atuais. A segunda razão está relacionada ao tema abordado na letra da música e resumido no título. O Brasil é um país cuja fé em Deus alcança 89% da população, segundo a pesquisa Global Religion 2023, realizada pelo Instituto Ipsos em 26 países, com 19.731 entrevistados. Abrigando diversas matrizes bem definidas, todas fundamentadas na crença em Deus, o Brasil oferece um universo imenso de possibilidades e facilidades para a penetração dessa música na sociedade.
É inegável que o carinho manifestado por Geraldo Azevedo, ao integrar “Tudo é Deus” ao seu repertório, proporcionou um avanço na divulgação das qualidades de um músico como Francisco Gileno. Esse ato contribuiu para que seus admiradores compreendessem que ele, Gileno, provém de um estado de forte sincretismo religioso, como a Bahia, e que possui um estilo musical de fácil assimilação, respeitoso em suas mensagens e responsável em suas produções. Esses, portanto, foram os dois principais motivos para que essa febre se manifestasse, disseminada por tantas pessoas de bom gosto e sensíveis a uma música de qualidade.
Diversos vídeos foram criados e produzidos, tendo “Tudo é Deus” como fundo musical. Eis alguns deles: pais de família, que gravaram com os filhos; artistas plásticos, que se inspiraram na música para apresentar suas obras; cantores e cantoras, que demonstraram o desejo de enriquecer seus repertórios com suas interpretações; alguns artistas individuais, que exploraram acordes e novos ritmos à música; outros artistas, que improvisaram duetos com a canção original; o próprio Geraldo Azevedo, que criou takes musicais para redes sociais; mulheres encenando danças circulares sagradas, com a música ao fundo; ou vídeos produzidos apenas com belos jogos de imagens. Todos tiveram, como ainda têm, um elemento em comum: os versos que traduzem a presença de Deus na natureza e na vida cotidiana, como forma de oferecer uma espécie de guia espiritual a quem n’Ele acredita.
TUDO É DEUS
Letra e música: Francisco Gileno
A mão de Deus é quem me leva
Já rezei a sua reza
Pra chegar aonde quiz, aonde eu quiz
Se o tempo de Deus aponta, não posso fazer de conta
Que quem sofre é feliz.
O olho de Deus é mágico, espanta tudo que é trágico
Mas só chora por amor, mas por amor
A fala de Deus é lógica, e quem não percebe em tempo
Do fruto da vida não conhece, o sabor
O sopro de Deus é vento
Na trilha do pensamento, é um macio do algodão, do algodão
A arte de Deus é tudo
É o acontecer do mundo, é o bater do coração

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).