Impressões e poemas de Terramor, novo livro de Gramoza




Imagem da capa do livro – produção independente





Apresentação


A poética de Carlos Alberto Gramoza é uma poética da memória e das sensações. Continuamente somos atravessados por rios, manhãs, cantigas no quintal, chuvas que, de uma forma constante, alimentam o leitor com essa profunda e amorosa ligação do poeta aos elementos naturais. Poética de conexão e de contacto com a natureza, a obra de Gramoza sulca, fecunda e germina a linguagem, soprando “soltos os ventos e as folhas”.
 
A obra de Gramoza também é uma poética de amor e da redenção: existe “o despertar de uma igual amanhecer”, o despertar amoroso que afasta a agonia e nutre de esperança quem do coração se alimenta. Essa esperança, esse acto de redenção e de humana solidariedade é também uma fortíssima força política, força que as palavras de Gramoza salientam, evidenciadas nas mãos do poema “Estrelas párias”. Uma força libertária que vai para além da utilidade e da própria existência do poeta: em “O flagrante de um momento”, os elementos naturais (o espaço, o rio, o mar, a floresta) não necessitam da existência do poeta, mas ele está lá, testemunhando essa força. E juntando a sua força à caminhada humana, aos “nossos irreverentes e persistentes passos”, como bem demonstra “Constelações”. Caminhada que pretende o nascimento de um novo mundo, que possa ser vivido e mostra-se.
 
Essa força política também está profundamente conectada às mais variadas reflexões sociológicas sobre o processo de miscigenação brasileira e sobre a igualdade, reflexões essas mais presentes em outros livros, mas que neste Terramor, podemos encontrar em “Gravetos”, em “Dois de novembro”.
 
Carlos Alberto Gramoza de voz intensa, de voz dos rios, das florestas, do activismo quilombola e indígena. Gramoza da justiça social e das memórias da infância: da invenção da linguagem e do amoroso abraço da poesia.
 
Jorge Vicente, Sintra, Portugal.   




 
ESTRELAS PÁRIAS
 
Os trancos
Uma mão outra mão
Outras mãos ainda
Dadas mãos na querela
E resiliência, resistências e superações
Mãos que acrescidas querem nesse quadro
Essas vivas cores de inenarrável luz
A buscada igualdade
Em círculo querendo essas mãos
Corações pegando-as de jeito o amor
Na buscada solução
Quem sem acepção essas cores ama
Também delas ama o artista ama
 
 
 
 
CONSTELAÇÕES
 
Nos dois olhos
O brilhante de duas estrelas
No céu do pensamento
Com outras confundir-se
Para iluminar essa rajada noite
Tomados lábios por sorrisos
A ascender a luz
Luz que por dentro ilumina
Luz que por dentro ardente
Luz ofuscada
Periga o escuro na terra
Dela vem
O que de todas as formas nos alimenta
Imposto silêncio às gritarias roucas vozes
Mas sempre outras iscas morderá
A superfície virá
Nos ágeis brilhos de relâmpagos
Seus vestígios se sentirá
Continuarão nossos irreverentes e persistentes passos
 
 
   
 
GRAVETOS
 
Um tão só coração
Pensamento
Voz
Não percute em mundo grande
Pelo viço da esperança
Alimentados corações pensamentos vozes
Mordida sentir-se pode a pedraria
De amor nada quase
Hominalmente concebido
Foi o mundo
De privilégios e ninguendades
Pelos noticiários tomadas as telas
De agora pertos
Corações pensamentos vozes
Tragédias trazendo
E levando-as aqui
Onde não se nutre do pão do verbo
Escórias cenosidades
Fedidas pátrias
Em gravetos torturadas insoniadas
Despontando
Em suas raras fragrâncias flores
 
 
 
 
CHUVA DO CAJU
 
Venha
Com sopros suaves acariciosos
Para não dos aromáticos cajueiros
Derrubar as estampadas flores
Nos lábios feito desprendidos sorrisos
Para de doces frutos dar a certeza
Nos cajueiros flores
Nos lábios sorrisos
Em mim se inscreveram no meu andar
O eterno vindouro de em novos tempos realizações
Estreando Estrelando
Numa nova inédita sonhada estação
 
 
 
 
DESOLAÇÃO
 
Pelos ventos
Machucados de folhas em mim
Desprendidos galhos braços em acenos
Das raízes em meus olhos linfa respinga
Quem marcar pode no espaço
Limite dos pássaros
O voo o coro libertário
Se árvores existem chuvas cai
Se árvores não existem chuvas não cai
Deles sou parte sem apelos
Dadas mãos se largando derreadas
E os moedores da vida
Por mais que tente adiar
Por mais vagaroso
Desolada virá a manhã




Carlos Alberto Gramoza já oferece valorosa contribuição para a história da “literatura piauiense”. Entre aspas porque sua poética, sempre com força nos aspectos da natureza, experimenta temáticas e estetizações universalizantes. Carismático, fragmentário fractal, contestador e lírico Gramoza vai se perenizando no panorama dos poetas sérios, substanciais, permanentes desta nossa geração. (Cunha e Silva Filha).




A poesia de Carlos Alberto Gramoza Vilarinho não fica a dever ao que se faz de boa poesia no Brasil atual. (Salgado Maranhão).







Carlos Alberto Gramoza é poeta nascido em Amarante (PI) e radicado em Teresina (PI). É autor de Tempos Perplexos, Passos Oblíquos, Ressacas e Escambo. Colabora com diversas mídias digitais voltadas exclusivamente à literatura; mais frequentemente com a revista virtual portuguesa INcomunidade e com a revista mexicana Sky Culture Magazine. Gramoza é membro da Academia de Letras, Artes e Cultura de Amarante (ALEMA).

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