Coluna Luís Palma Gomes: Felizes os que contemplam

Ilustração: Elton Fernandes



Chegou a hora de partir da aldeia.

Mais uma vez me despeço desta terra da alegria — que, tendo tão pouco de alegre, conserva ainda o sortilégio de nos aliviar da guerra urbana, concedendo-nos uma breve licença para beijar a mão da natureza e escutar as histórias encriptadas no canto e no piar dos irmãos pássaros.
 
A natureza renova-se a cada ciclo, com a segurança do eterno.

Os homens não: tornam-se grisalhos, perdem dentes, ou mesmo a vida. Outros nascem — ainda lácteos — e correm pelas ruas, pedindo água nos cafés, como outrora nos arrabaldes de Lisboa.
 
Uma velha economia resiste, escorando uma identidade de meados do século passado: algum gado, azeite e cortiça. Alguns pensionistas regressam à aldeia natal, na esperança de viver em paz os últimos anos.

Mas acreditam numa ilusão.

A paz transporta-se dentro do coração — tal como a guerra.
E a paz é, talvez, inversamente proporcional ao desejo.
Em mim, quando a imaginação desperta o desejo destrói a contemplação.
E então, como diz a minha sogra, vê-se o trigo crescer à noite.
 
A beleza, por aqui, não pertence a ninguém: está fora de portas.
E por isso se pode dizer: felizes os que contemplam.

 
Salvaterra do Extremo (Castelo Branco), 04 de julho de 2026



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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