
Às vésperas da partida, o pequeno bosque onde tanto de sua infância absorvera luz e fascínio. Homem humilde, temperamento calmo, o avô o conduzia por entre as árvores. Uma pedra ou um tronco caído: eles se sentavam ali, o avô respondendo às perguntas da infância. O menino junto à pedra ancestral. Inalava o ar úmido das folhagens como respirando o que também o cercava, o bosque que nada retinha de seu passado tão verdadeiro, quando se embrenhava por aquelas sendas com a única intenção de presenciar a manhã entre as árvores, olhos silenciosos perscrutando as coisas, vez ou outra abaixando-se, julgando ter encontrado algo no chão. Fixava-se no desenho rugoso dos troncos, no tapete de folhas, nos insetos das raízes – neles, encontrava indícios de que a vida era maravilhosa, ainda que indecifrável.
“Uma criatura tão frágil”, o avô com sua voz característica, observando um escaravelho, “por menor que seja, pode guardar um grande segredo.”
A luz tênue penetrava as copas. Desfazia-se em focos suaves, dando diversos tons aos arbustos, ao musgo dos troncos, às criptógamas. O menino os copiava obstinadamente, aos focos e aos seus efeitos, com precários lápis de cor, sonhando gravá-los para sempre no papel, talvez um primeiro passo no sentido de interpretá-los um dia. Também para que não se perdessem e para que o impedissem de esquecer o arrebatamento, o frescor e a intensa realidade daquelas manhãs.
A escola de pintura, os meninos que o ensinaram a fumar, outros desenhistas, pequenos intelectuais, o chafariz de carranca ao redor do qual se reuniam antes das aulas, o recanto entre as árvores, o artista que poderia ter sido… Era notável que sempre houvesse perdido tantas oportunidades. Pudesse, e diria a si mesmo, se naquele tempo o alcançassem as palavras: são inquietudes e alegrias tão íntimas que te constrangem e te calam. Tão caras que te pedem o preço do silêncio. Por isso conterás tua voz, evitando assim a propagação do que ainda não conheces inteiramente. Mas não queiras compreender tudo a um tempo. Não aceites a primeira resposta. Não digas a ninguém que este bosque é teu.
O menino se ia sem que eu percebesse, passava por mim. Adeus, amiguinho encantado. Você também era eu.
Distância do avô morto. As folhas no chão. Tudo retorna à terra, não há muito que dizer. Mas ali estava ele, o velho humilde e arcado, acenando-lhe devagar. Pensou que o chamasse pelo nome. Entre as árvores vivas. Adivinhava que, por trás da cortina de orvalho, ele sorrisse mansamente, a silhueta de névoa contra a luz diáfana, a ilusão dos focos. Intuía que também ele, à maneira dos escaravelhos, guardasse seu grande segredo. Podia jurar que ele sorria, a distância. A que distância? Os limites da lembrança, as asas do sonho. Focos dispersos. Lágrimas puras de menino perdido. Em silêncio, o fantasma sorria.
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).
