
Quando nós, Homo sapiens, representados por brancos norte-americanos, descemos na Lua, nós, uma parcela ridiculamente pequena e irrelevante da mesma espécie, já morávamos na casa nova.
No primeiro semestre daquele mesmo ano, meus pais conseguiram um financiamento e adquiriram seu primeiro imóvel, uma casa simples, alinhada diretamente na calçada, sem jardins, sem recuos, basicamente um portão de grade e uma parede contínua interrompida pelo vitrô da sala e pelas venezianas da janela de um quarto.
O quintal dessa casa era pequeno, chão de cimento liso, quatro grandes placas preenchendo a área que dava para um estreito corredor lateral, mas nos parecia suficiente para qualquer coisa de brincar. E era ali que jogávamos bola, com uma trave improvisada de um lado só, disputando cobranças de pênaltis e as consequências de cada rebote, que nos permitiam driblar, correr uns passos no espaço exíguo, vivenciando assim as felicidades e as agonias próprias do esporte. Na prática, não existia essa trave: era apenas uma demarcação no muro, marcada com giz. Na primeira vez em que a bola caiu na casa da vizinha, ficamos paralisados – eu, dois colegas da vizinhança e um primo. Chamamos por alguém do outro lado, e arrastou-se um silêncio que pesava no ar. Naquela idade, isso tudo nos parecia muito mais grave do que qualquer incidente internacional. A frente da casa de dona Leonor dava para a primeira rua perpendicular à nossa, de tal forma que era o seu corredor lateral o que fazia fundos com o nosso muro. Sabíamos, por informações, que era um corredor cimentado, encerado em vermelho, nenhum vaso de plantas, nem mesmo algum pequeno móvel, nada que pudesse ser danificado pela queda daquela bola leve, de material ordinário. Depois de uns tantos minutos à espera, um objeto caiu à nossa frente, no meio do quintal. A bola havia sido rasgada com algum instrumento cortante, talvez o mais simples, alguma faca de cozinha, e era agora só uma casca de plástico, completamente morta. Uma voz ligeiramente rascante assumiu a autoria do atentado:
“Toda vez que cair coisa aqui, vai ser isso!”
Envergonhado, pedi ao meu pai que nos comprasse outra bola. Ele a trouxe no dia seguinte, produto barato de algum armazém próximo, que ficava no caminho de seu trabalho. A partir daí, combinamos entre nós o máximo de cuidado: nada de bolas altas, nada de cabecear, qualquer coisa que pudesse causar um novo incidente. Sim, todos de acordo: engajados para evitá-lo ao máximo. Mas isso não foi possível. Mais cedo ou mais tarde, uma jogada desastrada arremessava novamente a bola para o território vizinho, que já tínhamos como uma nação hostil.
“Ah, que pena!”, fazia a voz de dona Leonor, além do muro. “Essa porcaria de bola furou!”
Os restos da bola esquartejada caíam entre nós como vindos do céu.
Meu pai tentou conversar com ela, batendo à sua porta: era apenas uma bola de plástico, não poderia fazer estragos em um corredor vazio, sem vasos ou enfeites – e éramos apenas crianças. Não fomos informados sobre o resultado de tais argumentações, mas ele mandou instalar, a partir do alto do muro, uma tela de arame trançado que quase duplicava sua altura, e agora brincávamos com mais tranquilidade e segurança. Porém, passados uns poucos dias, quando a bola, arremessada acidentalmente para muito alto, tocou o topo estreitíssimo da tela e, tragicamente, em meio a duas possibilidades, escolheu cair para o lado do inimigo, ficamos com a sensação de que aquilo seria o fim. Mais uma vez, agora sem o acréscimo de qualquer comentário arrepiante, a casca da bola morta voou por cima da fronteira proibitiva, caiu tristemente entre nós.
Por causa desses insucessos, nossas tardes terminavam cheias de culpa, impregnadas de silenciosas angústias. Entendíamos que nós mesmos havíamos perdido nossas pequenas chances, por erro nosso, por nosso descuido e imprudência. Eu não teria coragem de pedir ao meu pai que substituísse mais uma bola e outra, já devia ser a quinta que perdíamos, mas ele ficou sabendo do ocorrido e nos proveu com mais uma réplica barata, do mesmo tamanho e marca, que geralmente era amarela, vermelha ou azul.
“Vão brincar, não liguem pra isso”, ele nos aconselhava. E saía de cena.
Isso durou pouco tempo. Isso, nossas brincadeiras, nosso futebol improvisado e nossa convivência com essa vizinha experiente e determinada. Dona Leonor vivia nessa casa com seu marido, um homem silencioso e debilitado, e tinha um filho na faixa dos trinta anos, motorista de ônibus intermunicipais. Nós o víamos de vez em quando, perto da esquina de casa: um rapaz simpático, bigode bem aparado, acenando às crianças enquanto passava, brindando-nos com trocadilhos e outras coisas engraçadas. Ele sempre se despedia desejando que ficássemos com Deus. Foi um choque quando soubemos que ele havia morrido, de um dia para o outro, vitimado pela cólera – mordido por um cão raivoso, não procurara ajuda a tempo, subestimando o ferimento leve.
Uma notícia dessas era devastadora para nós, não apenas pela surpresa terrível de tê-lo perdido para sempre, mas também porque deparávamos com cães de rua praticamente todos os dias. Depois dessa tragédia doméstica, seus pais se mudaram de lá, eu nunca soube se para outro bairro ou para outra cidade. O fato é que nunca mais tivemos notícias deles, por isso não fiquei sabendo do que teriam morrido.
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agosto, A seta de Verena, Marcas de gentis predadores, Projeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedra, A conspiração dos felizes, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).
