
Quando penso em minha infância, vejo um menino atrás da vidraça numa noite tempestuosa – rosto sem sorrir, olhos iluminados por relâmpagos que o fascinam.
O relâmpago irrompe das nuvens, ramifica-se no céu, e eu vejo um menino cultivando, entre outras maravilhas, sua árvore de ovos, a que no verão reluz como um arranjo de pérolas ao longe; no outono, deita cascas ressequidas; no inverno, põe-se uma árvore como outra nua qualquer (os que passam ignoram seu segredo de sementes); e, na primavera, ostenta grandes formações, dentro das quais se adivinham gemas suculentas. Dragões emergem das chaminés. Cogumelos na relva. Há também a marcha de partículas de poeira rumo ao Sol.
O relâmpago cai das alturas, precedendo o estrondo que lhe corresponde, move a terra, e eu vejo um menino mudo. Se não sorria, hoje menos se vê em seu rosto. Pensa que a madeira da janela tem atravessado o tempo, e os carpinteiros e os vidraceiros estão todos mortos. Uma janela que, sendo a mesma, abre-se para esta noite tempestuosa que é hoje noite (não mais), tempestade (não mais), vidro por si só.
O relâmpago fende a noite suspensa, e eu vejo um menino contra seu próprio reflexo, gotas escorrendo de seus olhos ou lágrimas de chuva, pois vê atrás de si uma mulher. Simplória e malvestida, encosta-se a um muro, porque não tem casa, e ali, a despeito das adversidades, do desamparo e do trauma de abortos anteriores, chora de dor e de prazer ao externar seu êxtase. Começa a chover. É um menino.
O relâmpago bifurca-se, triparte-se no céu, e eu vejo um menino entretido em não apenas registrar, aproveitando-se do luminoso labirinto que lhe proporcionam as tormentas: vivenciar, supondo-se à parte do tempo e das casas, o que possa minar os homens como a umidade na fresta das molduras de todas as janelas e infâncias.
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

Uma resposta
Lindo conto! Uma descrição poética de um fenômeno da natureza , sob os olhos de um menino . O fim do conto pode ilustrar o nao sorriso do menino?